Estudo Inédito sobre Resistência Antimicrobiana
O pesquisador Mitermayer Galvão dos Reis, da Fiocruz Bahia, está à frente de um estudo inovador focado na resistência antimicrobiana, adotando uma perspectiva de saúde única. O projeto, que acontece no Laboratório de Patologia e Biologia Molecular (LPBM/Fiocruz Bahia), reúne cientistas nacionais e internacionais para investigar as coleções hídricas de Salvador. As investigações contemplam locais estratégicos como o Rio do Cobre, a Bacia do Rio Camarajipe — a maior bacia hidrográfica da cidade, com aproximadamente 14 km de extensão — e o Rio Pituaçu, que se origina nas proximidades da BR-324 e deságua no oceano.
As atividades do projeto foram apresentadas durante o Seminário sobre Resistência Antimicrobiana sob uma Visão da Saúde Única, realizado nos dias 11 e 12 de dezembro de 2025. O evento contou com a presença de pesquisadores, pós-graduandos, profissionais de engenharia sanitária, vigilância em saúde, biotecnologia, infectologistas e microbiologistas, criando um ambiente rico para a troca de experiências e conhecimentos.
Desafios da Resistência Antimicrobiana
A resistência antimicrobiana se refere à capacidade de microrganismos, como bactérias, de sobreviver aos efeitos de medicamentos específicos. Essa resistência pode ocorrer de forma natural, mas também é exacerbada por ações humanas, como o uso inadequado de antibióticos, além de fatores relacionados ao clima e à higiene. O uso excessivo de antimicrobianos e o descarte inadequado de resíduos são as principais causas que aceleram esse processo, sendo abordadas dentro da perspectiva de saúde única, que considera a interconexão entre saúde humana, animal, ambiental e vegetal.
Mitermayer Galvão revelou que o interesse por este estudo surgiu em 2017, durante sua participação no Congresso da Sociedade de Medicina Tropical Americana, nos Estados Unidos. “Lá, a compreensão de que a resistência antimicrobiana representa um grave problema de saúde pública é bastante avançada”, comentou.
Importância da Educação e Vigilância
No seminário, o professor Nilton Erbet Lincopan, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo e uma referência no tema, destacou a importância de educar a população sobre hábitos que podem contribuir para a resistência microbiana. “É fundamental que a Academia se envolva na extensão universitária para informar a comunidade”, defendeu.
Adriano Monteiro, pós-doutorando da Fiocruz Bahia, alertou sobre a silenciosa pandemia de resistência antimicrobiana. Ele ressaltou a urgência de vigilância fora do ambiente hospitalar, especialmente em ambientes como rios urbanos. “Nossos estudos mostram que os rios de Salvador são importantes reservatórios de bactérias resistentes, contendo genes de resistência que antes eram encontrados apenas em ambientes hospitalares”, explicou. O seminário foi um espaço crucial para discutir a necessidade de vigilância e suas implicações para a saúde pública.
Colaboração Interdisciplinar no Combate à Resistência
A professora Joice Pedreira, Titular da Faculdade de Farmácia da UFBA, destacou que a resistência antimicrobiana é um dos maiores desafios de saúde global atualmente. “Reunimos, pela primeira vez, especialistas de diversas áreas para compartilhar experiências e discutir o uso de antibióticos e a resistência microbiana. As discussões foram muito ricas e fornecerão diretrizes importantes para ações futuras”, enfatizou.
Renata Cristina Picão, professora do Departamento de Hidrobiologia da UFSCar, destacou a riqueza das trocas de experiências, especialmente no contexto da cidade de Salvador. “A interação intersetorial foi enriquecedora, e a colaboração entre pesquisa e políticas públicas é essencial para enfrentar a resistência antimicrobiana”, refletiu.
Lee Andrade, estudante de doutorado da Fiocruz Bahia e participante do projeto, expressou sua gratidão pela oportunidade de aprendizado durante o evento. “Foi valioso conhecer melhor os trabalhos em andamento e receber sugestões para meu próprio projeto. Acredito que o evento foi fundamental para estabelecer uma rede de colaboração entre pesquisadores e instituições, ampliando as possibilidades para a pesquisa e publicação”, concluiu.


