Como a baixa conectividade impacta o avanço da agricultura digital no Brasil
A agricultura digital no Brasil representa um grande passo na convergência entre tecnologias de informação e comunicação e a produção agrícola. Desde o uso de sensores e drones até a análise de dados por inteligência artificial (IA), o setor enfrenta desafios significativos para se manter competitivo no mercado global. Um dos principais obstáculos é a fragilidade da infraestrutura de internet no meio rural. Especialistas concordam que a digitalização agrícola não é apenas uma opção, mas uma exigência estratégica para garantir a competitividade e a sustentabilidade do Brasil, que já se destaca como um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo.
Dados recentes do Radar Agtech Brasil indicam que existem atualmente 1.972 startups focadas em tecnologia agrícola, um aumento de 75% em relação ao primeiro levantamento realizado em 2019. Apesar desse crescimento, a questão da conectividade permanece um gargalo crítico, que impede que muitos produtores, especialmente os pequenos, aproveitem as inovações disponíveis no mercado. Segundo estimativas da consultoria McKinsey, o potencial de ganhos a partir da digitalização do setor pode ultrapassar a marca de US$ 20 bilhões.
A Digitalização e o Futuro do Agronegócio
O Secretário Executivo do Agronegócio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Governo do Ceará, Sílvio Carlos Ribeiro, destaca a crescente adoção de tecnologias digitais na agricultura, que busca aumentar a produtividade dos cultivos. De acordo com ele, os produtores estão cada vez mais utilizando tecnologias como sensores, drones, satélites e Big Data. “Essas ferramentas não apenas reduzem custos, mas também otimizam o uso de insumos”, afirma.
Ele ressalta que a digitalização tem revolucionado a produção agrícola, desde a aplicação de defensivos até a nutrição das plantas, e que a inteligência artificial se mostra uma aliada vital nesse processo. Contudo, Ribeiro aponta que a escassez de mão de obra no campo pode ser atenuada com a adoção dessas tecnologias, já que empresas de tecnologia e startups estão surgindo para desenvolver soluções inovadoras que podem facilitar o trabalho dos agricultores.
O Papel da Embrapa na Digitalização Agrícola
Júlio César Dalla Mora Esquerdo, chefe adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Agricultura Digital, ressalta as inúmeras vantagens que a agricultura digital tem sobre os métodos tradicionais. Ele explica que a digitalização é um conceito amplo que abrange toda a cadeia produtiva, desde o planejamento até a comercialização.
Na prática, isso significa um melhor planejamento das safras e acesso a insumos adequados com base em dados climáticos e históricos. No campo, tecnologias como sensores e máquinas conectadas permitem um manejo mais preciso, que se reflete em aumento de produtividade e redução de custos. Depois da porteira, os benefícios se estendem à rastreabilidade e à logística, oferecendo maior transparência no processo produtivo.
A Revolução da Agricultura de Precisão
Segundo Esquerdo, a agricultura de precisão pode ser considerada a principal inovação do setor, utilizando tecnologias como GPS e sensores. No Centro-Oeste do Brasil, por exemplo, muitos produtores de soja e milho relatam economias de cerca de 20% no uso de insumos e aumentos de produtividade de até 25%. Essas práticas estão mudando a forma como a agricultura é realizada, permitindo que produtores respondam rapidamente a problemas e reduzindo o uso de agroquímicos.
Além disso, a inteligência artificial e as técnicas de aprendizado de máquina estão se tornando fundamentais para a análise de grandes volumes de dados, ajudando os produtores a tomar decisões mais assertivas. “A agricultura digital transforma informação em ação, permitindo que o produtor maximize a produção com menos recursos”, finaliza Esquerdo.
Barreiras à Adoção da Digitalização
Apesar dos avanços, a adoção da agricultura digital ainda é limitada no Brasil, principalmente por questões de conectividade e letramento digital. Muitos pequenos e médios produtores enfrentam dificuldades com a familiarização em tecnologias, o que não se deve apenas à resistência, mas à falta de capacitação adequada. “Sem treinamento contínuo, a tecnologia é frequentemente subutilizada”, alerta Esquerdo.
A falta de integração entre sistemas e a escassez de assistência técnica são outros fatores que dificultam o progresso nesse sentido. Para que a digitalização avance, é crucial investir em infraestrutura de internet rural e na capacitação dos agricultores, criando soluções acessíveis que se adaptem à realidade do campo brasileiro.
O Caminho para o Futuro do Agronegócio Digital
Amílcar Silveira, presidente da Federação da Agricultura do Ceará, acredita que o Brasil está em um caminho sem volta. Ele enfatiza que as inovações, embora já estejam em uso em grandes propriedades, ainda são um desafio para pequenos produtores. Contudo, existem iniciativas, como o suporte do Sebrae para pequenas propriedades, que buscam integrar tecnologia ao dia a dia do agricultor.
No contexto das disparidades entre produtores, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) também reconhece a necessidade de promover o uso intensivo de tecnologia entre os pequenos agricultores. A digitalização não apenas melhora os rendimentos e a eficiência, mas também contribui para a sustentabilidade do setor.
Para o MAPA, o futuro da agricultura brasileira é promissor, desde que o investimento em capacitação e tecnologia continue a crescer. O setor agropecuário está preparado para impulsionar novos saltos tecnológicos, solidificando a posição do Brasil como líder na produção global de alimentos.


