Desafios do autocuidado feminino
A rotina diária das mulheres muitas vezes envolve trabalhar fora de casa, gerenciar os afazeres domésticos e cuidar dos filhos, refletindo apenas uma parte das diversas responsabilidades que elas enfrentam. Neste mês que comemora as conquistas femininas, especialistas ressaltam que o autocuidado continua sendo um desafio para muitas baianas. Dados da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) revelam que menos da metade das mulheres entre 25 e 64 anos em Salvador fez o exame preventivo do colo de útero em 2024, apesar de esse serviço ser oferecido gratuitamente na rede pública de saúde. Além disso, em 2025, a Bahia foi palco do lançamento nacional das novas diretrizes para rastreamento desse tipo de câncer. Contudo, a adesão ainda está aquém da meta de 70% estipulada pela Organização Mundial da Saúde.
A situação se agrava quando se consideram as doenças ginecológicas infecciosas, como HPV, candidíase e vaginose bacteriana, que permanecem entre as principais razões para que as mulheres busquem atendimento nos postos de saúde da capital baiana, segundo o Ministério da Saúde.
Causas do baixo índice de exames
A ginecologista e professora da Afya Salvador, Ludmila Andrade, aponta que o baixo índice de realização de exames está ligado, em parte, à faixa etária das mulheres atendidas. “Muitas delas ocupam-se com o trabalho, os filhos e, em algumas situações, os cuidados com os pais. Com isso, a saúde acaba sendo deixada de lado”, explica. A profissional ainda menciona outros fatores que contribuem para essa realidade, como a limitação de horários nas Unidades de Saúde, que funcionam apenas durante o expediente comercial, quando muitas dessas mulheres estão no trabalho.
Experiências anteriores negativas com exames, como dor intensa e atendimento impessoal, também influenciam a decisão de evitar esses procedimentos. A falta de privacidade e acolhimento adequado tornam o ambiente desconfortável. Além disso, tabus sociais, como a vergonha e o medo de expor o corpo, bem como o temor do julgamento em função da vida sexual, são barreiras que afastam as mulheres dos consultórios. Por outro lado, há aquelas que, mesmo sem sintomas, não consideram necessário realizar os exames. Também existe um percentual de mulheres que têm medo dos resultados e, como consequência, evitam os exames.
Impactos da rotina na saúde emocional
A sobrecarga emocional oriunda da rotina acelerada é um fator crítico que provoca estresse e uma série de alterações hormonais, afetando diretamente a fertilidade, o sono e o bem-estar geral das mulheres. Mila Motta, mestre em psicologia da saúde e professora do curso de Medicina da Afya Vitória da Conquista, ressalta que essas dificuldades estão atreladas a questões socioculturais.
“A socialização feminina é marcada por expectativas de cuidado, responsabilidade pelo bem-estar coletivo e pela necessidade de desempenhar múltiplos papéis com excelência. Estudos indicam que as mulheres tendem a ser mais autocríticas e a ruminarem mais, o que as torna mais vulneráveis à depressão”, alerta a psicóloga.
Aumento de casos de ansiedade e depressão
Um levantamento realizado pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) revela que o número de atendimentos a mulheres com ansiedade e depressão cresceu 22% em 2024, sendo que as faixas etárias mais afetadas estão entre 30 a 49 anos. Essa realidade reforça a importância de uma abordagem que contemple não apenas os cuidados médicos, mas também o suporte psicológico necessário para que essas mulheres possam cuidar de sua saúde de forma integral.


