Uma Narrativa de Resistência e Memória
O espetáculo ‘Maré Cheia: Da lata d’água na cabeça à luta pelo chão’ é uma poderosa representação das histórias de vida de três mulheres negras e idosas da comunidade de Alagados, em Salvador. Com apresentações marcadas para os dias 20, 21 e 22 de março, sempre às 19 horas, no Centro Cultural SESI Casa Branca, a montagem promete levar ao público uma reflexão profunda sobre a luta por moradia, memória e resistência. A entrada é gratuita, permitindo acesso amplo a essa criação que transcende o simples ato cênico e se transforma em um manifesto social.
O espetáculo é protagonizado por Elza Cândida, Josilda Moura e Maria do Amparo, que, com suas histórias autobiográficas, se conectam à trajetória da Península de Itapagipe. A partir de relatos pessoais, as atrizes entrelaçam palavra, corpo e memória, construindo uma narrativa que revisita a luta por cidadania e dignidade, marcada pela autossuficiência e organização comunitária. Alessandra Flores, a multiartista responsável pela direção, destaca que o trabalho não é apenas um espetáculo, mas um questionamento sobre quem tem o direito de narrar suas próprias histórias.
A História de Alagados
Situada na Bahia, a ocupação de Alagados remonta à década de 1940, quando famílias começaram a construir suas moradias sobre as águas. Com o passar do tempo, os moradores transformaram a maré em chão, utilizando lixo e entulho para criar um espaço habitável. Nos anos 70, mais de três mil palafitas se erguiam na região, tornando-se um símbolo de resistência e organização comunitária. Essas mulheres foram fundamentais em diversas mobilizações sociais, promovendo iniciativas culturais e redes de solidariedade que ainda se perpetuam.
“Maré Cheia” é o resultado de um processo criativo que começou em 2016, no projeto “Minha História Conto Eu”, idealizado por Alessandra Flores. A interação com o grupo Biogênese / GRUCON, que deu origem ao Coletivo Mulheres Marés, foi crucial para o desenvolvimento do projeto. Diversas criações surgiram desse convívio, incluindo obras literárias e artísticas, como o boneco gigante “Maria Palafita” e o livro multimídia “As A(Voz) de Todas”, que reúnem textos de mulheres afrodescendentes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Uma Criação Coletiva e Transformadora
A dramaturgia de “Maré Cheia” é enriquecida por fragmentos de cartas, vídeos e canções que compõem a narrativa. O processo criativo permitiu que outras mulheres com mais de 50 anos participassem de ateliês de escrita e oficinas de teatro de bonecos. Esses encontros ampliaram a escuta e solidificaram o espetáculo como uma construção coletiva, onde memórias diversas se entrelaçam em um mesmo tecido poético.
Alessandra Flores destaca que a obra é a realização de um desejo profundo de ver essas mulheres no palco. “Criar ao lado de mulheres tão valentes e sábias é um presente. Essa obra traz em si a história de muitas parceiras de caminhada, e agora queremos construir mais uma ponte com o público”, compartilha a diretora, enfatizando a importância de dar voz a narrativas que frequentemente são silenciadas.
Sobre a Diretora
Alessandra Flores é uma artista multifacetada, combinando atuação, artes plásticas e jornalismo. Com formação em Comunicação Social pela UERJ e mestrado em Artes Cênicas pela UFBA, ela tem mais de 20 anos de experiência em processos criativos colaborativos. Sua trajetória inclui a transformação de relatos de vida em diversas formas de arte, como espetáculos, livros e instalações. Alessandra é reconhecida por sua pesquisa que articula arte, memória e território, sempre com foco na ampliação de vozes historicamente marginalizadas.
Serviço
Espetáculo: Maré Cheia: Da lata d’água na cabeça à luta pelo chão
Data: 20, 21 e 22 de março, às 19 horas
Local: Centro Cultural SESI Casa Branca (Avenida Caminho de Areia, 1454, Mangueira, Salvador, Bahia)
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: livre
Entrada gratuita


