Recuperações Judiciais no Agronegócio
O agronegócio brasileiro atravessou um ano desafiador em 2025, registrando 1.990 pedidos de recuperação judicial, mostrando um aumento preocupante de 56,4% em comparação a 2024. Este é o maior número de solicitações desde que a Serasa Experian começou a monitorar o setor, em 2021. O dado revela uma contradição econômica significativa: mesmo com supersafras e um forte crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário, muitos produtores e empresas rurais se encontram em dificuldade financeira. O aumento das taxas de juros, a queda nos preços das commodities e o crescimento dos custos de produção são os principais fatores que agravam essa situação crítica.
De acordo com a consultoria de dados, o cenário macroeconômico adverso pressionou o fluxo de caixa das operações rurais ao longo de 2025. Isso resultou no aumento do número de produtores endividados, obrigando muitos a buscarem o recurso judicial para renegociar suas dívidas.
Impacto no Sistema Financeiro
A situação financeira do agronegócio começou a afetar o sistema bancário. Instituições financeiras públicas, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, notaram um aumento significativo na inadimplência dentro do setor, impactando os resultados dessas instituições. Com um desempenho recorde na produção agrícola, a rentabilidade dos produtores continua sob pressão. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um crescimento de 11,7% na agropecuária do PIB brasileiro em 2025, impulsionado por uma colheita histórica de grãos. Contudo, esse desempenho não foi suficiente para conter a crise financeira que se agravou nos campos.
A discrepância entre produção e rentabilidade tem sido a principal causa dessa crise. Apesar de resultados expressivos em volume, as cotações internacionais de grãos enfrentaram quedas, enquanto os custos de insumos, como fertilizantes, defensivos agrícolas, energia e logística, permaneceram elevados, resultando em margens de lucro reduzidas. Essa situação foi ainda mais complicada pela alta das taxas de juros no Brasil.
Pressões Elevadas sobre os Produtores
Conforme análise de especialistas do setor, um dos fatores centrais que influenciam essa deterioração financeira é o ambiente de crédito restritivo. Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, destacou que a combinação de custos elevados, alta endividamento e dificuldades de acesso ao crédito comprometeu o fluxo de caixa de diversas operações rurais. Ele ressalta que a atual conjuntura econômica mantém a pressão sobre os produtores, especialmente aqueles com altos níveis de alavancagem.
Embora exista a expectativa de uma redução na taxa básica de juros, a Selic, ao longo de 2026, que pode oferecer um alívio parcial, especialistas enfatizam que os efeitos não serão imediatos. Renato Conchon, coordenador do Núcleo Econômico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), explica que o financiamento agrícola segue o calendário do Plano Safra, que é definido entre junho e julho. Isso implica que o plantio da safra 2026-2027 ainda será financiado a taxas elevadas, mesmo que o Banco Central inicie um ciclo de quedas na Selic em breve.
Aumento nas Recuperações Judiciais
O levantamento realizado pela Serasa Experian abrange pedidos de recuperação judicial de produtores rurais, tanto pessoas físicas quanto jurídicas, e também de empresas ligadas à cadeia produtiva do agronegócio. Os dados mostram um crescimento em todas as categorias analisadas: 853 pedidos de recuperação judicial de produtores rurais, um aumento de 50,7% em relação a 2024; 753 pedidos de empresas agrícolas, uma alta de 84,1%; e 384 pedidos de empresas da cadeia agro, representando um crescimento de 29,3%. Essa elevação generalizada indica que a crise financeira não se restringe apenas às propriedades rurais, mas afeta toda a cadeia produtiva, incluindo distribuidores de insumos, cooperativas e fornecedores de máquinas.
Consequências para o Sistema Bancário
A deterioração financeira no agronegócio impactou diretamente o sistema bancário brasileiro, especialmente aqueles com forte atuação no crédito rural. A Caixa Econômica Federal informou que os créditos problemáticos na carteira do agronegócio triplicaram em um ano, saltando de R$ 4 bilhões para R$ 12 bilhões. Esse aumento na inadimplência obrigou a instituição a elevar suas provisões para perdas de crédito, resultando em uma queda de 39,6% no lucro líquido recorrente do banco no último trimestre de 2025, totalizando R$ 2,8 bilhões.
De forma similar, o Banco do Brasil, o maior financiador do agronegócio no país, também viu seu desempenho afetado pela inadimplência no crédito rural, que atingiu 500% acima da média histórica. O lucro do banco caiu para R$ 20,7 bilhões, uma retração de 45,4% em relação a 2024, o menor resultado desde 2020.
Desafios Adicionais no Cenário Internacional
Além das dificuldades internas, a conjuntura internacional também adiciona riscos ao agronegócio brasileiro. O conflito no Oriente Médio, envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, provocou oscilações nos preços do petróleo e dos combustíveis, elevando os custos logísticos e pressionando a inflação global. Esse cenário pode dificultar uma redução mais rápida na taxa Selic no Brasil, prolongando um ambiente de juros altos que impacta diretamente o financiamento agrícola. Ademais, tensões geopolíticas e disputas comerciais internacionais podem afetar a demanda por produtos agrícolas brasileiros, especialmente em mercados estratégicos.


