Mudanças na Fala dos Baianos
No início deste mês, o CORREIO divulgou um vídeo provocativo com o título: “Baianos estão falando como paulistas… e tem um motivo”. Essa publicação, realizada no Instagram, gerou mais de mil comentários e deu início a um debate acalorado. A discussão despertou a questão: o que realmente está mudando no português falado na Bahia, especialmente com fatores como migração, home office e a crescente influência das redes sociais entre as crianças?
Para entender essas mudanças, a reportagem conversou com linguistas, educadores, crianças e adultos. “Nos últimos anos, notamos uma ampliação nas referências linguísticas. Antigamente, a família e a comunidade local eram as principais influências. Hoje, as redes sociais também desempenham um papel fundamental”, explica Ana Vogeley, doutora em Linguística e Coordenadora de Aspectos da Fala da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia.
No caso das crianças, o consumo crescente de conteúdos digitais, especialmente aqueles criados no Sudeste, aliado ao home office dos adultos, gerou uma nova onda de interações linguísticas. “Meus amigos brincam que estou falando como paulista”, relata Ruan Araújo, publicitário que adotou o modelo de home office em uma agência de São Paulo desde 2022.
“Mudanças na estrutura do português falado na Bahia estão sendo comprovadas cientificamente”, afirma Thamiris Coelho de Assis, natural de Candeias, doutora em Língua e Cultura e professora na Universidade Federal de Pernambuco.
Na Bahia, pelo menos três mudanças significativas já foram documentadas: a aproximação dos jovens à variedade linguística de maior prestígio, caracterizada pelo uso frequente de formas associadas à norma culta; alterações nas formas de tratamento, como a diminuição do uso do “tu” em favor do “você”; e a assimilação de expressões oriundas de outras regiões do Brasil. Essas transformações refletem não apenas a dinâmica social e tecnológica, mas também a riqueza cultural do estado, que continua a evoluir em um cenário de diálogo e intercâmbio.
Assim, a nova forma de expressão dos baianos sinaliza um momento de adaptação e reflexão sobre a identidade linguística na era digital. As conversas nas redes sociais não apenas ampliam a diversidade de influências, mas também oferecem uma nova plataforma para a construção e reconstrução da fala local, um fenômeno que merece ser acompanhado de perto por estudiosos e amantes da língua.


