Pressão no Mercado de Alho Brasileiro
O setor agrícola brasileiro de alho atravessa um novo período de desafios, refletindo em uma queda significativa na produção. De acordo com a Associação Nacional dos Produtores de Alho, a projeção é de que a área cultivada diminua entre 15% e 20% até 2026. Esse retrocesso ocorre após um ano em que a oferta excessiva e os preços baixos geraram prejuízos consideráveis para os produtores.
Um dos principais fatores que contribuem para esse cenário é a intensa concorrência das importações, especialmente do alho argentino, que entrou no mercado brasileiro sem tarifas devido às regras do Mercosul. Com isso, a oferta interna aumentou, pressionando ainda mais os preços. Em resposta a essa situação, a associação já planeja um pedido de investigação por dumping, alegando que os produtos importados estão sendo comercializados a preços inferiores ao custo de produção local.
Consequências para as Regiões Produtoras
A pressão no mercado é visível nas principais regiões produtivas do Brasil. Em Santa Catarina, um conhecido polo produtor de alho, as estimativas indicam que até 60% da safra pode se tornar inviável nas atuais condições de mercado. Essa situação não apenas ameaça milhares de postos de trabalho, mas também gera dificuldades financeiras em municípios que dependem fortemente dessa atividade econômica.
O impacto do movimento nas importações é significativo para a economia do setor. A cadeia produtiva do alho movimenta cerca de R$ 7 bilhões anualmente e é responsável por aproximadamente 300 mil empregos diretos e indiretos em todo o país. No Brasil, cerca de 40 mil produtores estão envolvidos na cultura, sendo a maioria composta por agricultores familiares.
Custos de Produção e Concorrência Externa
Além da pressão das importações, os custos de produção continuam a ser um dos maiores obstáculos para a competitividade do alho brasileiro. O cultivo dessa hortaliça exige mão de obra intensiva e alto investimento em tecnologia, chegando a superar R$ 120 mil por hectare. Os principais custos envolvem sementes, insumos, irrigação, energia e processos de beneficiamento.
Em contraponto, países como Argentina desfrutam de condições climáticas mais favoráveis e exigem menor tecnificação, o que resulta em custos menores e, consequentemente, uma vantagem competitiva significativa. Esse diferencial reflete diretamente na formação dos preços e limita as possibilidades de reação dos produtores brasileiros.
Produtividade e Avanços Tecnológicos
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Brasil conseguiu produzir 172,8 mil toneladas de alho em 2024, cultivando uma área de 12,8 mil hectares, com um valor de produção estimado em R$ 2,41 bilhões. Mesmo assim, o país ainda precisa importar cerca de um terço do alho que consome, que é calculado em cerca de 360 mil toneladas por ano.
Especialistas do setor ressaltam que, apesar dos altos custos, os avanços tecnológicos têm contribuído para aumentar a produtividade nas últimas safras. Adoção de técnicas como vernalização e utilização de sementes livres de vírus possibilitaram que alguns produtores alcançassem médias de até 16 toneladas por hectare. No entanto, o custo elevado de produção permanece como o principal desafio para competir com os produtos importados.
Perspectivas Futuras para o Setor
Com o início do plantio avançando nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste e prestes a começar no Sul do país, o setor de alho se encontra em um momento crítico. A abertura de uma investigação antidumping pode modificar as condições do mercado nos próximos meses. Entretanto, enquanto essa situação não se concretiza, os produtores continuam a enfrentar a pressão de preços baixos e margens de lucro cada vez mais apertadas.


