Conexões Literárias: A Amizade que Quebra Barreiras entre Culturas e Ideologias
A amizade entre Jorge Amado, um dos maiores escritores brasileiros, e José Saramago, laureado com o Nobel de Literatura, floresceu nos anos 1990, apesar das diferenças culturais. Em um momento em que muitos questionavam o papel da literatura na sociedade, ambos se uniram em torno de um ideal comum: colocar o ser humano à frente das ideologias e dos partidos, defendendo a autonomia do pensamento crítico.
Após a morte de Jorge Amado em 2001 e de José Saramago em 2010, essa ligação se perpetuou através de suas filhas. Paloma Amado e Pilar del Río, viúva do autor português, continuam a preservar e promover o legado dos dois escritores, gerenciando suas respectivas fundações. Frequentemente, as instituições colaboram em projetos como a Casa Amado e Saramago, criada na Festa Literária Internacional de Paraty em 2017, e o livro “Com o mar por meio. Uma amizade em cartas”, que compila correspondências ineditas entre os dois.
No último dia 18, durante a Bienal do Livro da Bahia, Paloma e Pilar participaram da mesa intitulada O Sal da Vida, mediada pela jornalista Joselia Aguiar, biógrafa de Jorge Amado. Em uma conversa descontraída, as duas refletiram sobre a importância de preservar a memória dos autores e seus legados.
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Pilar del Río recorda: “Amado era alegre e extrovertido; Saramago era sombrio e introvertido. Mas juntos, eles estavam sempre descontraídos.” Para Paloma, essa amizade se fortaleceu em razão do humanismo compartilhado. “Eles se conectavam como dois humanistas. Embora de culturas distintas, ambos eram contrários ao pensamento único e às ditaduras. Colocavam o ser humano acima de qualquer ideologia.”
Ambas as obras são representadas internacionalmente pela Wylie Agency, uma das mais respeitadas do sector, o que exige um equilíbrio entre a qualidade literária e o interesse comercial. A dupla defende uma abordagem mais ética em relação ao legado literário, ao contrário de outros herdeiros que priorizam apenas os ganhos financeiros.
Recentemente, Paloma mencionou que tem trabalhado em novas traduções das obras de Amado para mercados como Rússia e China. Ela relata: “A obra de papai ficou liberada de suas editoras na Itália, onde ele é muito lido. Ao negociar, nossa prioridade não foi o aspecto econômico, mas sim escolher quem apresentasse o melhor projeto.”
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Curiosamente, a obra de Amado foi traduzida para o armênio pela primeira vez, um passo considerado simbólico, já que a língua tinha potencial comercial limitado. “Teve gente que ficou chocada. Mas se necessário, eu pagaria do meu bolso para ver a obra do meu pai em armênio”, afirma Paloma, ressaltando a importância cultural sobre a econômica.
Pilar complementa essa visão, enfatizando seu compromisso com o leitor. “Quando falamos de literatura, estamos falando de uma relação fundamental entre quem escreve e quem lê. É nosso dever preservar essa conexão.” E assim, as fundações seguem seu trabalho, mantendo viva a memória de Saramago e Amado.
A Fundação José Saramago, situada em Lisboa, abriga uma exposição permanente dedicada ao autor de obras como “A jangada de pedra”. Já a Casa de Jorge Amado, em Salvador, oferece uma rica experiência cultural aos visitantes, hospedando o Memorial A Casa do Rio Vermelho e a Fundação Casa de Jorge Amado, onde são exibidos objetos pessoais e manuscritos do autor baiano.
Paloma relembra que seu pai acreditava que seu trabalho seria esquecido após sua morte. “Ele dizia que seria ignorado por 20 anos. Agora, sua casa é um dos locais culturais mais visitados do país”, conta, cheia de orgulho.
Além de seu papel na fundação, Paloma se envolveu pessoalmente com a produção de edições artesanais, uma delas contendo não apenas receitas, mas também desenhos feitos por ela. Em um encontro inesperado, ela apresentou uma dessas edições à atriz Isabelle Huppert, que estava em Salvador para um evento. “Fiquei tão encantada que, ao contrário do que poderia imaginar, foi ela quem pediu uma foto comigo!”, lembra, rindo da situação.


