Desconfianças e Acusações nas Relações do Planalto
A recente derrota do governo na indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) gerou um ambiente de desconfiança no Palácio do Planalto. Após a votação, que resultou na rejeição do ministro da Advocacia-Geral da União, o governo passou a investigar possíveis traições, especialmente entre as fileiras de partidos como MDB e PP. Essa situação fez com que a relação entre o Planalto e seus aliados começasse a se deteriorar. Lideranças do MDB reagiram, afirmando que o governo tenta transferir a responsabilidade pela derrota, chamando isso de intriga e maledicência.
A Reação do MDB e PP
De acordo com interlocutores do Planalto, a inflexão decisiva ocorreu no dia da votação. Naquele momento, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), desempenhou um papel crucial ao consolidar a maior parte da bancada do PP, que conta com sete senadores. O apoio do presidente do partido, Ciro Nogueira (PI), que inicialmente havia declarado apoio a Messias, foi visto como duvidoso, especialmente por ter se alinhado a Alcolumbre durante toda a sessão.
Além disso, a percepção em relação ao MDB é que houve uma dissidência organizada dentro da bancada, o que alimentou as suspeitas no governo. Alcolumbre teria explorado descontentamentos com a decisão do presidente Lula, visando a disputa pela vaga no STF.
Pronunciamento de Lula e os Obstáculos do ‘Sistema’
No pronunciamento em rede nacional na noite de quinta-feira, em celebração ao Dia do Trabalho, o presidente Lula fez menções a obstáculos impostos pelo que ele chamou de “sistema”. Em um de seus trechos, Lula expressou que “sempre que avançamos em melhorias para o povo brasileiro, o sistema age contra nós”. Essa fala evidenciou a insatisfação do governo diante da situação política atual.
‘Bode Expiatório’ e Reações
O líder do MDB no Senado, Eduardo Braga (AM), refutou as alegações de que sua bancada teria trabalhado contra a indicação de Messias. Em uma nota, ele classificou as declarações como tentativas de criar um “bode expiatório” para a derrota. O senador Renan Calheiros (MDB-AL) também se manifestou, negando qualquer traição e defendendo que as derrotas devem servir como aprendizado e não como justificativa para intrigas.
Messias obteve apenas 34 votos a favor, ficando sete votos aquém do necessário para a aprovação. A votação foi secreta, o que gerou incertezas sobre a fidelidade dos senadores que apoiavam a indicação. O núcleo mais alinhado ao governo englobava senadores do PT, PDT e PSB, que somavam 18 votos, enquanto outros 13 senadores haviam declarado previamente apoio a Messias, mas não havia certeza sobre sua lealdade.
Contas e Dinâmica da Votação
As contas feitas pelo governo indicam que parlamentares da oposição garantiram os votos de todos os 16 senadores do PL, além de 11 que já se mostraram contrários à indicação, provenientes de partidos como Republicanos e PSD. Esse complexo cenário inclui tanto opositores notórios quanto congressistas mais próximos ao governo.
Quatro senadores, que pediram anonimato, relataram que Alcolumbre contatou parlamentares para solicitar votos contrários a Messias, incentivando-os a persuadir outros colegas. A assessoria do presidente do Senado negou as afirmações.
Responsabilidades e Críticas Internas
Dentro do Planalto, a pressão recaiu sobre o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), que se viu na obrigação de justificar a previsão equivocada de votação. Na quarta-feira, ele havia afirmado que Messias seria aprovado com 45 votos, mas após conversar com Lula, reconsiderou e estimou um placar inferior. Críticas também surgiram em relação ao ministro José Guimarães, responsável pela articulação política, que assumiu o cargo há pouco tempo. Aliados do governo alegam que a administração subestimou o risco de derrota ao não ter adiado a votação.
Com a situação política em ebulição, a derrota na indicação de Messias tem o potencial de reconfigurar as relações entre o Palácio do Planalto e seus aliados, colocando à prova a habilidade do governo em navegar por um cenário desafiador e repleto de desconfianças.


