A Presença Indígena e Afro no Carnaval de Salvador
Discutir o Carnaval em Salvador é, sem dúvida, explorar um riquíssimo universo que envolve memória, luta por narrativas e um sentimento profundo de pertencimento. A cidade, que abriga uma das festas populares mais icônicas do planeta, também se destaca por suas formas de representar culturas, identidades e histórias ao longo do tempo. Recentemente, esse processo tem sido imerso em uma revisão essencial, especialmente no que se refere à representação dos povos indígenas dentro da cultura brasileira.
Além da significância cultural, o Carnaval de Salvador se destaca como um impulsionador econômico vital para a cidade. Em 2024, o evento movimentou em torno de R$ 1,8 bilhão na economia local, conforme estimativas da Prefeitura de Salvador e da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult). Essa grandiosa festividade mobiliza diversas cadeias produtivas, envolvendo trabalhadores da cultura, turismo, comércio e serviços.
O Papel Econômico do Carnaval
A Secretaria de Turismo da Bahia (Setur-BA) revelou que o Carnaval atraiu milhões de visitantes ao estado durante o evento, evidenciando sua força como atração turística. Os dados, que podem variar conforme a metodologia utilizada, reafirmam o Carnaval como um dos maiores eventos de massa do Brasil e um motor significativo de geração de renda e empregos.
Esse impacto econômico ressalta que o Carnaval não é meramente uma festa, mas um sistema intrincado que entrelaça cultura, trabalho e renda. Ao mesmo tempo em que promove Salvador em um cenário internacional, também expõe desigualdades históricas sobre participação, lucro e representação. É nesse entrelaçamento de economia, cultura e identidade que se intensificam as disputas simbólicas que permeiam a festividade.
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A Representação dos Povos Indígenas
Nas últimas décadas, o Brasil tem se deparado com um avanço significativo no reconhecimento e no respeito às culturas indígenas. O que antes era dominado por estereótipos e narrativas que invisibilizavam essas culturas, agora vem sendo reavaliado. Há um esforço crescente para a valorização das línguas originárias e um fortalecimento da presença indígena em esferas de decisão, universidades, arte e política. A linguagem também evoluiu, com termos anteriormente naturalizados sendo questionados e incorporando conceitos como território, autodeterminação, ancestralidade e direito à memória. A pauta indígena ganhou um espaço central nas discussões contemporâneas sobre democracia, meio ambiente e identidade nacional.
Desafios e Transformações no Campo Cultural
Esse deslocamento impactou diretamente o campo cultural. Festas populares, manifestações artísticas e expressões carnavalescas estão sendo revisitadas sob uma nova ótica que prioriza a representação e o respeito. O foco agora está em ouvir lideranças indígenas e estabelecer diálogos significativos, sendo um processo em construção repleto de tensões, mas que demonstra um amadurecimento social. Reconhecer erros do passado, rever linguagens e aprofundar significados tornou-se parte essencial dessa trajetória.
Esse movimento é, para muitos, uma evolução necessária e inadiável. O Carnaval sempre foi um espaço de criatividade, mas também de reprodução de representações. Anteriormente, havia uma falta de questionamento sobre as imagens que eram veiculadas. Hoje, a consciência crítica sobre o que se representa ampliou a festa, conferindo-lhe novos significados.
A Nova Identidade dos Apáxes do Tororó
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Dentro desse contexto, a trajetória dos Apáxes do Tororó é emblemática. Esta agremiação, que se afirma como um bloco afro-indígena, não só promove a alegria do Carnaval, mas também carrega consigo um legado de memória e identidade. Criado no final da década de 1960, no bairro do Tororó, o bloco surgiu em um cenário cultural efervescente, marcado por desigualdades sociais agudas.
A ideia do Apáxes nasceu de uma desagregação da escola de samba Filhos do Tororó, onde um grupo desejava uma proposta mais livre, sem as estruturas rígidas que caracterizavam as agremiações tradicionais da época. Assim, emergiu um bloco que unia alegria à consciência social.
Resistência e Cultura Viva
A escolha da temática indígena não foi ao acaso. Inspirado por imagens que circulavam no cinema e na cultura popular daquele período, o bloco passou a representar o “índio valente” como uma metáfora de resistência. Essa representação repercutia nas vivências da população negra e periférica do bairro, que encontrou nessa imagem um símbolo de enfrentamento à exclusão e ao racismo. Mesmo utilizando elementos estéticos associados a povos indígenas norte-americanos, como cocares, a essência cultural sempre manteve uma forte conexão com a realidade afro-indígena da Bahia.
O presidente dos Apáxes, Adelmo, destacou em uma entrevista à Rádio Metrópole a importância histórica do bloco. “O Apáxes foi o primeiro a ter música própria e um estilo único”, afirmou. O pioneirismo refletiu na organização do próprio bloco, que inovou ao estruturar um trio elétrico e oferecer serviços como bar e segurança, alterando o modelo organizacional da festa. Em 1988, o bloco se tornou ainda mais relevante ao lançar um disco comemorativo, marcando o primeiro registro fonográfico de um bloco afro-indígena da Bahia.
Legado e Preservação Cultural
Adelmo também ressaltou que a inspiração para o nome e a estética do bloco derivou de imagens vistas no bairro, onde filmes de temática indígena eram exibidos. O imaginário coletivo transformou essas referências externas em um símbolo local, reinterpretando-as à luz da vivência negra e popular do Tororó.
Entretanto, a jornada não foi fácil. Ao longo de suas quase seis décadas, o bloco enfrentou desafios, como perseguições e tentativas de deslegitimação. Joselito, um membro do grupo, recordou as adversidades que enfrentaram. “Nós éramos muito hostilizados”, disse. Apesar das dificuldades, o legado do Apáxes perdura, contribuindo de forma significativa para a cultura afro-indígena do Carnaval. “A nossa batida existe há 57 anos, e seguimos firmes com ela”, comentou Adelmo.
Políticas Públicas e Renovação Cultural
Nos últimos anos, iniciativas como o programa Ouro Negro têm promovido a revitalização dos blocos afro e afro-indígenas, fortalecendo a preservação da memória cultural da cidade. A presença constante de comunidades indígenas nos desfiles tem ampliado o diálogo entre tradições, reforçando o compromisso com a ancestralidade. Em 2026, o bloco fez uma enorme homenagem à sua origem, reafirmando seu lugar como patrimônio vivo do Carnaval baiano.
A transformação dos Apáxes do Tororó é um testemunho de que quando a tradição se abre ao diálogo, ela não se enfraquece, mas se fortalece. O futuro do bloco, assim como da própria cultura soteropolitana, é um convite à reflexão sobre como a celebração da diversidade pode ser uma força poderosa para a continuidade de uma história rica e plural.


