Sete caminhos para entender Taurino Araújo
O economista e ativista do Movimento Negro Mário Nelson Carvalho lançou um estudo aprofundado sobre a vida e a obra do baiano Taurino Araújo. Intitulado Taurino Araújo — O Mercado das Sete Portas: Sete caminhos de uma eloquente vocação genuinamente brasileira, o ensaio percorre quase cinco décadas da trajetória multifacetada do jurista, poeta, pensador, crítico literário, artista visual e professor. O título faz referência ao Mercado das Sete Portas, tradicional espaço cultural de Salvador, que serve como metáfora para as múltiplas facetas do homenageado.
Das portas à convergência: um olhar sobre a obra
Organizado em sete dimensões — poesia, pensamento, Direito e democracia, crítica, construção cultural, arte e convergência —, o estudo revela que essas áreas, embora distintas, formam um processo contínuo e integrado na produção intelectual e cultural de Taurino. Carvalho propõe que essas “portas” não representam atividades isoladas, mas sim manifestações de uma mesma vocação criativa que se entrelaça ao longo do tempo.
Na última porta, a convergência, está o ponto mais decisivo: não se trata de adicionar uma nova atividade, mas sim de reconhecer que todas as anteriores se entrelaçam. A poesia carrega o pensamento; o pensamento questiona o Direito; o Direito se conecta com a vida pública; a crítica devolve o pensamento à criação; a construção cultural promove encontros; e a arte materializa um procedimento comum que atravessa todas essas linguagens.
Da poesia à arte visual: uma trajetória entrelaçada
A primeira porta, a poesia, é explorada a partir da obra Acaturna, poema de 96 versos que resgata uma palavra antiga da Língua Portuguesa, ampliando seu sentido para abarcar corpo, memória, território e ancestralidade. O ensaio incorpora o olhar crítico recebido pelo poema, como o tratado de 48 páginas de Nelson Cerqueira, que reforça a complexidade dessa produção e desafia classificações simplistas.
O percurso segue pelo pensamento, ancorado na obra Hermenêutica da Desigualdade, que abre caminho para as reflexões sobre Direito, democracia, crítica, construção cultural e artes visuais. O interesse de Carvalho está na permanência das relações entre esses campos, que não se apresentam como compartimentos estanques, mas como territórios interligados que enriquecem mutuamente a obra de Taurino.
Na quinta porta, a construção cultural, destaca-se o projeto Signos em Transe, organizado por Taurino Araújo, que reuniu 62 autores de sete países e cinco idiomas. O lançamento na Academia de Letras da Bahia contou com apoio da UNEB e do CNPq. Essa coletânea evidencia o princípio de agregar sem eliminar as diferenças, criando uma unidade coletiva a partir da diversidade.
O mesmo princípio aparece na produção artística de Taurino. Sua experiência no Grupo de Arte Canoatan, as assemblages no Parque da Cidade e a obra AGREGAÇÃO mostram como elementos reconhecíveis — folhas, galhos, flores — se combinam para gerar novos sentidos. A obra visual AGREGAÇÃO extrapola seu papel estético e nomeia um procedimento recorrente em toda a trajetória do artista.
Convergência e identidade cultural
A sétima porta representa a síntese da arquitetura do ensaio. Para Carvalho, o Direito não precisa abandonar sua essência para dialogar com a literatura; a poesia não precisa virar filosofia para pensar; a Bahia não precisa perder sua singularidade para se relacionar com o mundo; e a língua portuguesa não deve renunciar a suas tradições para incorporar novos significados.
Essa convivência respeitosa entre elementos distintos preserva identidades e, ao mesmo tempo, gera novos sentidos. Eventos separados por décadas — da experiência no Grupo Canoatan ao magistério, da crítica literária à obra AGREGAÇÃO — compõem uma continuidade que revela uma vocação única, presente em todas as expressões de Taurino Araújo.
Carvalho conclui que as sete portas não indicam sete Taurinos diferentes, mas sim múltiplas manifestações de uma mesma vocação. A metáfora do Mercado das Sete Portas se transforma: essas entradas independentes conduzem a um mesmo centro. A Bahia que dialoga com o mundo, a matéria dispersa que se torna agregação, e a multiplicidade que revela uma convergência singular caracterizam o percurso retratado neste estudo.

