Crescimento expressivo dos atendimentos por ludopatia na Bahia
O número de atendimentos relacionados à ludopatia — transtorno caracterizado pelo impulso persistente e incontrolável de jogar e apostar, mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais e familiares — aumentou mais de 445% na Bahia entre 2021 e 2024. Os dados, obtidos junto ao Ministério da Saúde, referem-se a consultas presenciais na rede pública de saúde para tratar problemas ligados aos jogos e apostas.
Esses atendimentos ocorreram no Sistema Único de Saúde (SUS), contemplando tanto a atenção primária quanto a especializada. O levantamento revela que o total de consultas saltou de 688, em 2021, para 3.750 em 2024, evidenciando um crescimento que chama atenção para o impacto da ludopatia no estado.
Classificações e dados do Ministério da Saúde
O Ministério da Saúde esclareceu que os registros de atendimentos são baseados principalmente nas classificações F63.0, que diz respeito ao jogo patológico, e Z72.6, relacionada à mania de jogos e apostas. Em 2022, foram registrados 1.225 atendimentos, número que cresceu para 2.331 no ano seguinte, alcançando 3.750 em 2024.
Vale destacar que esses dados representam o total de atendimentos realizados, não o número de pacientes, pois um mesmo indivíduo pode ter múltiplas consultas. Além disso, o SUS oferece suporte em saúde mental para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, assim como para seus familiares, por meio de atendimentos presenciais e on-line.
Fatores que impulsionam o aumento dos casos
A psicóloga clínica Amanda Guene, em entrevista, apontou a facilidade de acesso às plataformas de apostas como um dos principais motivos para o crescimento dos atendimentos por ludopatia. Ela destaca que o acesso facilitado, inclusive via empréstimo consignado, amplia o alcance dessas práticas.
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Além disso, campanhas publicitárias que promovem as apostas como uma solução rápida para dificuldades financeiras contribuem para o aumento do interesse e da participação nessas plataformas. “A propaganda que apresenta essas plataformas como algo positivo, ligado à chance de quitar dívidas e conseguir dinheiro fácil, incentiva as pessoas a buscarem esse caminho”, explicou a especialista.
Consequências do hábito de apostar
Para Amanda, o que começa como a expectativa de ganhos pode rapidamente se transformar em um ciclo de prejuízos financeiros e sofrimento emocional. Muitas pessoas usam as apostas como forma de escapar de problemas, buscando uma distração temporária que, no entanto, não resolve as questões subjacentes.
“Alguns jogam buscando excitação e emoções prazerosas, outros tentam fugir dos problemas do dia a dia. Porém, esse alívio é momentâneo e não se sustenta”, ressaltou a psicóloga. O ciclo vicioso se instala quando as perdas financeiras aumentam a ansiedade e as preocupações, agravando o quadro.
Ela ainda reforça que, durante o acompanhamento psicológico, é fundamental entender o significado do comportamento para o paciente. “É preciso identificar qual função esse comportamento exerce na vida da pessoa, quais os prejuízos e como promover mudanças”, explicou.
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Medidas para enfrentar a ludopatia
Diante dos impactos sociais e financeiros causados pelas apostas, Amanda defende a adoção de medidas restritivas às plataformas de jogos e iniciativas de educação financeira. “Eliminar as apostas online seria uma forma eficaz de reduzir esse problema, já que muitos utilizam essas plataformas sem consciência dos riscos”, afirmou.
A educação financeira é apontada como complemento essencial para que as pessoas compreendam melhor suas finanças e evitem cair em armadilhas relacionadas a jogos e apostas.
Como buscar atendimento no SUS
O Ministério da Saúde informou que, desde março, a oferta de teleatendimentos para pessoas com problemas ligados a jogos e apostas já ultrapassou 100 mil atendimentos mensais. Para acessar o serviço, o usuário deve usar o aplicativo Meu SUS Digital e agendar uma consulta com especialista. As sessões são feitas por videochamada, com sigilo e sem julgamentos, em um ciclo inicial de até dez encontros.
Ao término desse ciclo, o paciente passa por nova avaliação para definir a continuidade do tratamento ou eventual encaminhamento para atendimento presencial. Quem preferir pode buscar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima, onde, se necessário, a equipe encaminha para outros serviços da rede pública, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

