O Renascimento do Carnê no Varejo
O tradicional carnê de loja, que durante anos foi um dos pilares do financiamento de compras a prazo, está fazendo um retorno surpreendente ao cenário do comércio brasileiro. Após ter sido eclipsado pelos cartões de crédito nos anos 2000, essa forma de pagamento, que já chegou a representar uma parte significativa das vendas de grandes varejistas, volta a ganhar espaço, agora mais modernizada e integrada às ferramentas digitais.
Essa mudança de cenário se dá em um contexto onde o comércio de produtos de maior valor, como eletrônicos e móveis, enfrenta desafios significativos. O crescimento das vendas a prazo enfrenta barreiras, especialmente devido à crescente inadimplência dos consumidores. Dados do Banco Central (BC) indicam que a taxa de inadimplência encerrou outubro em 6,7% dos saldos dos empréstimos com recursos livres, refletindo um panorama preocupante para a concessão de crédito.
Pesquisas realizadas pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) corroboram essa tendência, revelando que, em novembro, aproximadamente 72,96 milhões de brasileiros estavam negativados, o que corresponde a 43,74% da população adulta, um número alarmante que indica um recorde histórico.
Varejistas Reagem e Apostam no Carnê
Empresas renomadas como Casas Bahia, Mercado Móveis, Magazine Luiza e Lojas Torra notaram a presença de uma parcela da população, especialmente de baixa renda, que estava sendo negligenciada pelo sistema de crédito tradicional. A constatação de que, ao oferecer o carnê diretamente, há uma oportunidade significativa para estimular compras novamente, motivou essas redes a reavivar esse tipo de financiamento.
Além de possibilitar uma nova fonte de vendas para o comércio, o carnê, que é financiado pelos próprios recursos do varejista e não por bancos, cria uma oportunidade de receita adicional por meio dos juros. Segundo Boanerges Ramos Freire, presidente da consultoria Boanerges&Cia, a relação entre varejo e bancos mudou ao longo do tempo. O rigor na aprovação de crédito por parte das instituições financeiras, aliado ao desempenho fraco das vendas, levou os varejistas a priorizar o crediário, que se tornou um componente essencial do seu negócio.
No caso da Casas Bahia, a participação do crediário próprio nas vendas aumentou de 10% em 2020 para cerca de 30% atualmente. Historicamente, após a estabilização econômica nos anos 1990, o carnê chegou a ser responsável por 70% do faturamento da rede, antes de ser transferido para instituições bancárias.
Vital Leite, diretor de Soluções financeiras da Casas Bahia, afirma que o crediário é uma ferramenta extremamente rentável. Ele destaca que o carnê torna viável a realização de vendas que de outra forma não ocorreria, especialmente para os consumidores com limites de crédito baixos ou que não possuem cartões.
O Papel do Digital e o Futuro do Carnê
Atualmente, o carnê volta a ser uma realidade na rede, que, após se concentrar em parceria com bancos, agora investe novamente no modelo de crédito próprio. No entanto, a participação do crediário digital ainda é modesta, representando entre 1% e 2% das vendas online. Friedemann, executivo da Magalu, aponta que, embora não revele metas específicas, enxerga grande potencial para expandir o uso do carnê em ambos os canais de venda, especialmente no e-commerce, que compõe 70% das vendas totais da empresa.
Além disso, o Magalu recebeu autorização do BC para operar como instituição financeira, o que lhe permitirá ampliar as opções de captação de recursos para financiar seus empréstimos. O Grupo Mercado Móveis, por sua vez, destaca a importância do crediário, que atualmente representa 50% de seu faturamento, e planeja que esse percentual chegue a 60% em 2024.
A nova campanha “Parcelou, ganhou” lançada pelo MM, oferece um item adicional aos clientes que optarem pelo carnê, demonstrando a relevância desse instrumento financeiro. O CEO, Marcio Pauliki, sublinha a importância do carnê, especialmente em regiões do interior, onde a relação de confiança entre consumidores e varejistas é mais forte.
Desafios e Oportunidades no Cenário Atual
Enquanto a inadimplência se torna um desafio, o modelo de crediário continua sendo atrativo por sua maior flexibilidade em comparação aos cartões. Dados da CNC revelam que mais famílias de alta renda começaram a optar pelo carnê, evidenciando um aumento no entendimento sobre educação financeira. As diferenças nas taxas de juros, que são significativamente mais altas no cartão de crédito, estão fazendo com que consumidores busquem alternativas mais viáveis.
Em resumo, o carnê, que parecia ter se tornado obsoleto, está ressurgindo como uma solução inteligente de financiamento no varejo, com uma abordagem mais adaptada às necessidades atuais dos consumidores brasileiros. Este retorno não apenas pode oferecer uma alternativa viável para a população, mas também representa uma nova fase para os varejistas, que buscam diversificar suas fontes de receita e atender a um mercado em constante mudança.


