Diversidade e Inclusão no Carnaval de Salvador
No dia 17 de janeiro, Salvador dará as boas-vindas ao Grupo Recreativo de Ocupação Lacrativa Alfabeta, um bloco inovador que promete expandir os horizontes do Carnaval. O Alfabeta surge com a missão de homenagear memórias que muitas vezes foram silenciadas e reafirmar que o samba é, e sempre foi, espaço de expressão para a comunidade LGBTQIAPN+.
Inspirado por estudos acadêmicos e pela rica cultura popular brasileira, o bloco busca celebrar figuras fundamentais da história do samba, como o carioca Ismael Silva (1905-1978) e o baiano Assis Valente (1911-1958). A proposta do Alfabeta não se limita a homenagens; ela também incorpora uma criação autoral vibrante, marcada pela irreverência e pelo “close bafônico” que permeia a narrativa cultural da cidade. Assim, o repertório apresenta uma fusão de memória, identidade e afirmação política, consolidando o samba como uma linguagem viva e plural.
Um Desfile Acessível e Inovador
O Alfabeta fará sua estreia na Rua do Meio, no Rio Vermelho, a partir das 15 horas, e se destaca por ser totalmente adaptado para acolher pessoas com deficiência. Essa iniciativa reflete um compromisso genuíno com a acessibilidade, planejado desde sua concepção, e não como uma adaptação tardia. A ideia é que todos possam participar e celebrar o Carnaval juntos, sem barreiras.
O desfile contará com diversos recursos de acessibilidade, além da colaboração de figuras representativas, como o ator e modelo Maurício Rosário, convidado a criar a sinalização oficial do bloco em Libras. Essa ação é um importante reconhecimento da comunidade surda dentro do universo carnavalesco, promovendo a inclusão de forma significativa.
Comunicação Acessível e Colaboração Coletiva
A proposta de acessibilidade do Alfabeta também se estende à sua comunicação digital. O perfil oficial do bloco, @blocoalfabeta, foi cuidadosamente desenvolvido para ser acessível a todos. Isso inclui postagens em carrossel com textos alternativos e audiodescrição, vídeos traduzidos em Libras e conteúdos exclusivos para garantir que pessoas cegas e surdas tenham autonomia para acessar as informações.
Ademais, o Alfabeta se constrói de maneira coletiva, com inscrições abertas para percussionistas LGBTQIAPN+ que toquem cuíca, repique, caixa ou tamborim. O bloco convida especialmente pessoas com deficiência para integrarem sua bateria, promovendo um ambiente inclusivo e colaborativo. Os ensaios acontecerão na Quadra do Apaxes, no Dique do Tororó, nas segundas e quartas-feiras, nos dias 5, 7, 12 e 14 de janeiro, das 19 às 22 horas.
Uma Nova História para o Samba
Para Adriano Marques, um dos idealizadores do projeto, o Alfabeta representa um marco simbólico e político. “O Alfabeta é feito por e para a comunidade LGBTQIAPN+, mas é, acima de tudo, um bloco para todo mundo. O mais importante é resgatar uma história que foi escrita, mas não contada: a presença e o protagonismo da comunidade LGBTQIAPN+ no samba, que sempre esteve ali, criando, inovando, abrindo caminhos. Agora, contamos essa história a partir da nossa própria voz”, afirma Marques.
Com sua proposta estética, política e cultural integrada, o Bloco Alfabeta promete se consolidar como um símbolo do Carnaval contemporâneo, onde a diversidade, a arte, a acessibilidade e o pertencimento coexistem. O samba, assim, reafirma sua essência de ser livre, coletivo e transformador.
O projeto “Alfabeta: Celebrando a Diversidade e Promovendo a Inclusão no Samba de Salvador” foi contemplado nos Editais Paulo Gustavo Bahia e conta com apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura, por meio da Lei Paulo Gustavo, coordenada pelo Ministério da Cultura do Governo Federal.
O Alfabeta surge para resgatar e dar visibilidade àqueles que contribuíram para a construção do samba brasileiro, mas que, historicamente, foram apagados por machismo, LGBTfobia e exclusão social.


