Crescimento alarmante de casos de tuberculose no Brasil
A tuberculose é uma realidade distante no imaginário popular, mas a verdade é que a doença continua a ser um sério problema de saúde pública no Brasil. Em 2022, foram registrados cerca de 85 mil novos casos e 6 mil mortes, posicionando a tuberculose como uma das principais causas de mortalidade entre doenças infecciosas no país.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou, em maio de 2014, a Estratégia Fim da Tuberculose, que visa a erradicação da doença até 2035. A meta para 2025 previa uma redução de 50% na incidência e 75% nas mortes. Contudo, o Brasil tem mostrado um padrão oposto, com um aumento contínuo na taxa de infecção desde 2015.
Em 2023, o Brasil registrou 39,8 casos de tuberculose para cada 100 mil habitantes, um número alarmante em comparação com a meta da OMS, que é de apenas 6,7 casos por 100 mil. Estudo da Fiocruz Bahia, publicado em janeiro deste ano, prevê que essa taxa possa chegar a 42,1 por 100 mil habitantes até 2030.
Estado do Rio de Janeiro em situação crítica
A situação é especialmente preocupante no estado do Rio de Janeiro, que em 2024 apresentou a segunda maior incidência de tuberculose do país, com 75,3 casos a cada 100 mil habitantes. As estatísticas mostram que houve 18 mil registros no estado, o maior número absoluto do Brasil.
Christina Pinho, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), atribui esse crescimento a fatores como aglomerações e a pobreza crescente da população. “O cenário econômico no Rio foi muito negativo nos últimos anos, e muitas pessoas vivem em condições precárias, como nas favelas. Além disso, a superlotação do sistema prisional contribui significativamente para a disseminação da doença”, destaca.
Impacto das prisões na disseminação da tuberculose
Um estudo recente intitulado “O encarceramento em massa como fator determinante da epidemia de tuberculose na América Latina”, publicado em 2024, destaca a relação crítica entre a alta incidência de tuberculose e as condições das prisões. Embora o número global de casos tenha diminuído 8,7% desde 2015, na América Latina essa taxa aumentou em 19%. Para Yiran Liu, pesquisadora associada da Universidade de Yale, as prisões são ambientes propícios para a propagação do bacilo causador da doença.
“O subdiagnóstico da tuberculose nas prisões é um problema grave. Muitas pessoas podem ser infectadas dentro do sistema prisional, mas a doença se manifesta meses ou até anos após a soltura”, explica Liu. O estudo revela que a prevalência de tuberculose entre os detentos é 26 vezes maior do que na população em geral, um dado alarmante que precisa ser abordado com urgência.
Desafios e soluções para o tratamento da tuberculose
O coautor do estudo, professor Júlio Croda, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), aponta que 37% das infecções de tuberculose no Brasil estão relacionadas a indivíduos encarcerados. Ele enfatiza que, ao longo dos anos, a superlotação carcerária exacerbou a situação. Entre 1990 e 2019, o número de presos no país aumentou de 90 mil para 755 mil.
Um dos principais desafios no combate à tuberculose é o diagnóstico. Croda afirma que apenas 50% dos casos são identificados nas prisões, e a falta de exames frequentes, como raio-X, contribui para essa lacuna. “Comparando com os Estados Unidos, onde a triagem e o tratamento são mais rigorosos, a realidade nas prisões brasileiras é alarmante, com condições precárias que favorecem a transmissão da doença”, completa.
Medidas de combate e novas vacinas
Embora o Brasil tenha feito progressos no combate à tuberculose, os desafios persistem. A Fiocruz está desenvolvendo uma nova vacina de RNA que poderá ser aplicada em idades mais avançadas. Além disso, existe um imunizante em fase final de testes que promete ser uma alternativa eficaz no controle da doença.
O tratamento atual é gratuito, mas sua complexidade e a duração de seis meses muitas vezes levam à interrupção por parte de pacientes que se sentem melhor após algumas semanas. Essa prática é perigosa, pois pode gerar cepas resistentes do Mycobacterium tuberculosis, aumentando o risco de surtos na comunidade.
O Brasil tem apostado na detecção precoce e no tratamento de contatos de pacientes com tuberculose. Pinho destaca a importância de identificar e tratar a tuberculose latente, que é comum na população, mas frequentemente não diagnosticada devido à ausência de sintomas.
Uma abordagem social para a tuberculose
Christina Pinho enfatiza que a tuberculose é uma doença socialmente determinada, intimamente ligada à pobreza. O Brasil já alcançou avanços significativos no passado, reconhecidos internacionalmente, e deve retomar esse foco. As políticas de suporte social, como o Bolsa Família, mostraram eficácia na redução da incidência da doença entre 2004 e 2015.
Para que o combate à tuberculose seja bem-sucedido, é essencial voltar a atenção para a situação prisional. Liu alerta que o encarceramento em massa não afeta apenas os detentos, mas também a saúde da população em geral. “Investir em alternativas ao encarceramento pode melhorar tanto a segurança comunitária quanto a saúde pública”, conclui.


