Desafios para Comunidades Tradicionais
Uma recente visita a três comunidades quilombolas no leste do Maranhão revelou um quadro alarmante: locais que historicamente cultivavam arroz agora se veem obrigados a adquirir o produto. Emília Costa, articuladora do Movimento Quilombola do Maranhão (Moquibom), compartilha que a situação não chegou a ser uma surpresa. “As monoculturas avançaram com força, e a soja invadiu nossos territórios, tomando as terras que eram nossas por direito”, diz Costa.
Esse fenômeno se espalha por vários territórios do Matopiba, uma região reconhecida como a última fronteira agrícola do Brasil. O acrônimo Matopiba reúne os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, e foi oficialmente instituído há mais de uma década com o objetivo de fomentar o agronegócio na área.
A soja se destaca como o principal produto cultivado nesta região, sendo responsável por 19% da produção nacional desse grão. A expectativa para a safra atual é de impressionantes 172,5 milhões de toneladas, um recorde que se baseia, em parte, na expansão acelerada das monoculturas. Atualmente, a soja ocupa cerca de 48 milhões de hectares em todo o Brasil, com mais de um terço desse espaço sendo implantado nos últimos dez anos.
Impactos na Segurança Alimentar
No Matopiba, o cultivo de soja se expandiu para quase cinco milhões de hectares, um dado que é comemorado por aqueles do setor agropecuário. Entretanto, segundo a socióloga Milena Evangelista, que investiga os impactos do agronegócio na segurança alimentar, essa narrativa de que o Matopiba é um salvador da produção alimentar pode estar equivocada. “A ideia de que o agronegócio combate a fome é uma falácia. Na prática, vemos o contrário acontecendo”, destaca Evangelista.
É importante lembrar que a maior parte da soja produzida no Brasil, cerca de dois terços, é destinada à exportação. Além disso, aproximadamente 90% do que permanece no país é utilizado como ração animal, não como alimento humano. Essa realidade revela um cenário preocupante, onde a região está sendo utilizada mais para a produção de commodities do que para cultivar alimentos que alimentam a população.
Redução de Culturas Tradicionais
A expansão das monoculturas tem resultado na diminuição de hectares dedicados a cultivos essenciais na dieta brasileira, como arroz, feijão e mandioca. Em pesquisa realizada pelo agrônomo Laelson Ribeiro, ficou evidente que o decreto que instituiu o Matopiba resultou na mercantilização de terras que antigamente eram cultivadas coletivamente. “Isso resultou em uma queda na produção, anteriormente mantida pela agricultura familiar”, explica Ribeiro.
Desde a oficialização da fronteira agrária em 2015, a região perdeu cerca de 142 mil hectares de arroz, 23 mil de feijão e 75 mil de mandioca. Embora esses números possam parecer pequenos em comparação à extensão ocupada pela soja, é fundamental destacar que muitas dessas áreas também sofreram desmatamento, afetando a vegetação nativa do Cerrado.
Desmatamento e Seus Efeitos
Nos últimos anos, o Cerrado tem liderado o desmatamento no Brasil e o Matopiba está no centro dessa devastação. Em 2024, 75% dos 652.197 hectares desmatados no bioma estavam localizados na região. O Maranhão, que abrange a maior parte do Matopiba, destaca-se com 218.298 hectares de vegetação perdida.
O desmatamento não afeta apenas a biodiversidade, mas também compromete a segurança alimentar das comunidades locais que dependem do extrativismo de alimentos nativos do Cerrado para sua dieta. Evangelista alerta que os dados sobre essa realidade são frequentemente negligenciados. “O Cerrado é considerado uma zona de sacrifício do agronegócio, onde as vidas e os laços comunitários são sacrificados por interesses econômicos”, observa.
Impactos na Produção Alimentar
Além da redução na área plantada, as comunidades do Matopiba enfrentam desafios climáticos exacerbados pela expansão do agronegócio. Bernardino Alves Barbosa, agricultor da comunidade de Fundo e Fecho de Pasto de Pedrinhas, na Bahia, relata que a mudança no clima e o aumento de pragas têm impactado negativamente sua produção. “Antigamente, nossa produção incluía milho, mandioca e feijão, mas o cultivo de arroz praticamente desapareceu”, lamenta.
Barbosa e outros agricultores vêm percebendo que o avanço das monoculturas trouxe mudanças climáticas que afetam os ciclos de chuva e aumentam a incidência de pragas. “As temperaturas nas noites estão mais quentes, e as plantações têm enfrentado novos desafios, como fungos e insetos desconhecidos”, explica.
A Contaminação das Culturas
Outro problema sério é a contaminação das culturas, que muitas vezes resulta do uso de agrotóxicos nas áreas vizinhas. Em Santo Antônio do Costa, várias roças foram afetadas pela deriva de venenos aplicados em fazendas próximas. “Onze famílias perderam toda a sua produção por causa disso”, relata Emília Costa, que também enfrenta dificuldades com a contaminação da água em sua região.
Diante desse cenário, agricultores que tentam manter práticas agroecológicas enfrentam muitos desafios. Barbosa destaca que, embora sua produção seja orgânica, a água utilizada para irrigação está contaminada devido a fontes próximas ao agronegócio. “Muitas plantas estão morrendo, e a vegetação ao longo dos rios está cada vez mais escassa”, observa.


