BaianaSystem e o Ato pela Democracia em Salvador
Na última terça-feira (20/10/2026), o BaianaSystem destacou-se no Ato pela Democracia ocorrido domingo (18), entre Ondina e a Barra, em Salvador. O evento reuniu música, cultura afro-baiana, crítica social e manifestações políticas num espaço público onde essas dimensões se entrelaçam. A mobilização declarou apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e contou com a presença de artistas renomados, como Daniela Mercury, Gilberto Gil e Liniker, além de organizações que representam a afirmação negra na Bahia, incluindo Ilê Aiyê, Banda Didá, Cortejo Afro e Filhos de Gandhy. A participação da banda ganha relevância histórica, pois seus integrantes reconhecem o Ilê Aiyê e o Olodum como matrizes fundamentais para sua formação artística.
Um Evento Artístico e Político
Idealizado e articulado por Daniela Mercury, o Ato pela Democracia foi apresentado como uma iniciativa independente da sociedade civil e do meio artístico. Contudo, a mobilização teve o objetivo explícito de apoiar Lula, com lideranças do PT baiano como Jerônimo Rodrigues, Rui Costa e Jaques Wagner divulgando e celebrando o evento em suas redes sociais. Assim, o ato se configura como uma manifestação democrática pró-Lula, alinhada politicamente à estratégia petista para o segundo turno das eleições.
A relação do BaianaSystem com esse campo político vai além do evento recente. Em 2022, o vocalista Russo Passapusso participou da nova gravação do histórico jingle “Lula Lá”; em janeiro de 2023, o grupo se apresentou no Festival do Futuro, na posse presidencial em Brasília, onde Russo conduziu uma manifestação de apoio; em fevereiro de 2026, durante o Carnaval de Salvador, puxou um coro a favor de Lula no Navio Pirata, acompanhado do governador Jerônimo Rodrigues; e, em outubro, integrou novamente uma manifestação com apoio explícito à reeleição presidencial. Esses episódios confirmam um apoio público e contínuo do grupo a Lula.
Cultura Negra e Música como Expressão de Resistência
O Ato pela Democracia percorreu a orla de Salvador uma semana antes do segundo turno presidencial de 25/10/2026. Artistas e organizações culturais conduziram apresentações em trio elétrico, defendendo a democracia, a soberania nacional e direitos sociais. O encerramento contou com a participação do Navio Pirata, conhecido instrumento do BaianaSystem para grandes cortejos populares.
A banda abriu sua participação com a música “Sulamericano”, que integra o álbum O Futuro Não Demora e traz referências à América Latina, liberdade e conflitos políticos. Essa escolha reforça a trajetória política e estética do grupo, que incorpora significados históricos em sua música.
Ao lado do BaianaSystem, estiveram Ilê Aiyê, Cortejo Afro, Banda Didá e Filhos de Gandhy, organizações que com o Carnaval, percussão, religiosidade e ocupação das ruas transformaram a cultura negra de Salvador em ferramenta de afirmação social e cultural.
As Raízes do BaianaSystem na Cultura Afro-Baiana
Essa ligação não é apenas uma leitura externa. Em 1º/11/2024, durante os 50 anos do Ilê Aiyê, Russo Passapusso e Roberto Barreto afirmaram claramente a influência do bloco afro em sua obra: “Não existiria BaianaSystem se não tivesse Ilê Aiyê”. Russo destacou que o Ilê não é apenas parte do passado, mas tem “pé no futuro”. Roberto Barreto ressaltou a evolução da música baiana pelas escolas percussivas dos blocos afro, citando a trajetória do Ilê Aiyê até o Cortejo Afro.
Fundado em 1º/11/1974 no bairro da Liberdade, o Ilê Aiyê tornou-se referência na valorização da identidade negra brasileira, confrontando a ideia de democracia racial e promovendo a cultura afro-brasileira e a história das revoltas negras no país.
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Olodum e a Influência da Matriz Africana
Além do Ilê Aiyê, o BaianaSystem reconhece também a forte influência do Olodum. Russo Passapusso afirmou que o grupo não existiria sem o bloco, que representa uma matriz africana fundamental para a construção sonora da banda. A parceria entre os dois resultou no espetáculo OlodumBaiana, apresentado em festivais nacionais.
A música do BaianaSystem, iniciada em Salvador em 2009, combina guitarra baiana com sound systems jamaicanos, incorporando ritmos como ijexá, afoxé, samba-reggae, pagodão, cabula e dub. Essa diversidade reflete uma forte herança africana presente na concepção musical do projeto.
Memórias de Resistência nas Ruas de Salvador
Essas raízes culturais fazem parte de uma história mais ampla, que remonta a eventos como a Revolta dos Búzios em 1798 — um movimento que reuniu negros, mestiços e setores populares em busca de liberdade, igualdade racial, república e fim da escravidão. Embora não haja ligação direta entre os revolucionários e o BaianaSystem, existe uma continuidade da memória política e cultural negra nas ruas da cidade, expressa em revoltas, irmandades, terreiros, afoxés, blocos afro e movimentos culturais contemporâneos.
Organizações como o Olodum preservam essa memória e o Governo da Bahia integra o movimento de 1798 em suas políticas culturais voltadas aos blocos afro. Assim, a presença do Navio Pirata em manifestações políticas vai além da música, inserindo-se numa tradição em que o tambor, o Carnaval e a identidade negra se entrelaçam com a ocupação coletiva do espaço público.
“Reza Forte”: Uma Tradição de Resistência Social
Lançada em 2021 pelo BaianaSystem com BNegão, a música “Reza Forte” destaca-se nesse contexto. Composta por Russo Passapusso, SekoBass e BNegão, a canção utiliza sample da Cantata pra Alagamar, obra que nasceu da resistência camponesa na Paraíba durante a ditadura militar. A cantata denunciava abusos sofridos por agricultores e celebrava a luta organizada contra expulsões e injustiças.
Essa obra conecta-se também à luta negra por meio de Dom José Maria Pires, arcebispo da Paraíba conhecido como Dom Zumbi. Ele teve papel importante no combate ao racismo e na organização da Pastoral Afro-Brasileira. Portanto, “Reza Forte” reúne tradições de resistência social, democrática, religiosa e popular, enquanto a música do BaianaSystem carrega matrizes afro-baianas que utilizaram o Carnaval como instrumento de afirmação social.
Apoio Político e Cultural ao Longo dos Anos
O engajamento político do BaianaSystem em apoio a Lula não é novidade. Em 7/05/2022, Russo Passapusso participou da gravação do jingle “Lula Lá”, com artistas como Chico César e Pabllo Vittar. Após a vitória de Lula, o grupo esteve no Festival do Futuro em janeiro de 2023, onde reforçou seu apoio.
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No Carnaval de 2026, Russo puxou um coro a favor de Lula, que acompanhava o desfile ao lado do governador Jerônimo Rodrigues. O Ato pela Democracia de 18/10/2026 integra essa sequência de manifestações públicas favoráveis à reeleição presidencial, embora não haja documentação que vincule o grupo formalmente ao PT.
O Ciclo Petista e a Cultura Negra na Bahia
Desde 2007, com a vitória de Jaques Wagner, o PT mantém o governo da Bahia, passando por Rui Costa e Jerônimo Rodrigues. Em 2026, esses líderes formam o núcleo político que apoia a candidatura de Lula nas eleições.
Esse ciclo consolidou políticas públicas voltadas para a população negra e as expressões afro-baianas, como a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), o Programa Ouro Negro e o Estatuto da Igualdade Racial. Em 2026, o Ouro Negro atingiu o maior investimento de sua história, com R$ 17 milhões destinados a 134 entidades de matriz africana, incluindo o Ilê Aiyê, reconhecido pela banda como matriz essencial.
Convergência sem Filiação Partidária
Apesar do financiamento público e das manifestações políticas, não se pode afirmar que o BaianaSystem seja uma estrutura partidária do PT. A banda mantém autonomia artística, embora haja uma convergência evidente entre suas pautas culturais e sociais com o campo progressista, especialmente em defesa da democracia, direitos sociais e valorização das matrizes afro-brasileiras.
O Ato pela Democracia, embora pró-Lula e apoiado por lideranças petistas, foi idealizado como uma mobilização independente, reforçando essa distinção entre engajamento político e filiação partidária.
Bahia: Base Estratégica para a Reeleição
No primeiro turno de 04/10/2026, Lula conquistou 66,17% dos votos válidos na Bahia, mais de 3,2 milhões de votos à frente de Flávio Bolsonaro. Nacionalmente, a disputa seguiu para o segundo turno em 25/10, tornando o estado um foco estratégico para ampliar a vantagem lulista.
O Ato pela Democracia, ao unir cultura e política, reflete esse cenário. O BaianaSystem, ao ocupar as ruas com sua música e tradição, reafirma seu papel na construção de espaços coletivos de participação política e cultural, especialmente num momento decisivo para o país.

