Irregularidades em Construção no Litoral da Bahia
O caso do Beach Club da família Vorcaro, proprietária do Banco Master, está gerando repercussão ao ter suas obras embargadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Localizado em Arraial d’Ajuda, o imóvel, que ocupa um terreno de 6 mil metros quadrados, integra um conjunto arquitetônico e paisagístico tombado em 1974. De acordo com a legislação, qualquer intervenção nesse tipo de área necessita de autorização do Iphan, além de licenças municipais e autorizações ambientais.
A documentação revela que, em julho de 2024, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano de Porto Seguro emitiu uma ‘licença de reforma’ para o imóvel, que previa a troca do telhado e piso, bem como melhorias nas instalações hidráulicas e elétricas. No entanto, fiscais do Iphan identificaram novas construções e a edificação de uma piscina, que não estavam mencionadas na licença municipal, levantando suspeitas sobre a legalidade da obra.
O terreno onde o Beach Club está sendo erguido, segundo avaliações de imobiliárias locais, pode ter um valor que varia de R$ 10 milhões a R$ 30 milhões, considerando sua privilegiada localização à beira-mar. A empresa responsável pela obra, a Milo Investimentos, tem sede em Nova Lima, Minas Gerais, e seu capital social é avaliado em R$ 15 milhões.
Denúncia de Ativista Ambiental
A denúncia sobre a irregularidade na construção partiu do ativista ambiental Tadeu Prosdocimi, que usou suas redes sociais para expor as intervenções na vegetação local. Em um vídeo publicado no Instagram, ele mostrou uma clareira provocada pela remoção de vegetação próxima à praia e denunciou a falta de identificação da obra. “Crime na cara de todos, mas ninguém viu!”, afirmou Prosdocimi, que também comunicou a situação ao Ministério Público.
A vegetação de restinga é crucial para a proteção da costa, atuando na fixação da areia e evitando a erosão. Além de servir como habitat para diversas espécies, essa vegetação é essencial para a manutenção do equilíbrio do ecossistema litorâneo. Especialistas destacam a importância da preservação dessa área para a biodiversidade e a saúde ambiental.
Vistorias e Medidas do Iphan
Após a denúncia, o Iphan iniciou vistorias no local e, em 26 de novembro de 2025, constatou que a obra estava em andamento sem a devida autorização. As irregularidades incluem a construção de uma piscina e outras edificações, além da ausência de um projeto devidamente aprovado. Em resposta, o órgão enviou um ofício à prefeitura de Porto Seguro, notificando sobre a situação, mas, segundo o Iphan, não obteve retorno.
Uma nova vistoria em janeiro de 2026 indicou que a obra continuava avançando, incluindo a destruição de vegetação de restinga. O Iphan, então, emitiu um auto de infração e um termo de embargo, alertando que a falta de cumprimento das ordens pode resultar em ações judiciais e multas para a Milo Investimentos.
Situação Financeira da Milo Investimentos
Conforme apurou o GLOBO, a Milo Investimentos enfrenta problemas financeiros, com dívidas de IPTU desde 2022, totalizando aproximadamente R$ 8 mil. A lei municipal proíbe a emissão de licenças para imóveis que tenham débitos. Em meio a esse cenário, um representante da obra alegou que a remoção da vegetação foi realizada pela prefeitura e defendeu a legalidade do projeto como uma reforma da antiga casa que existia no local.
Repercussão e Insatisfação
A situação envolvendo a construção do Beach Club e suas implicações financeiras e ambientais tem gerado reações negativas, tanto localmente quanto em nível nacional. Especialistas e ativistas ambientais estão preocupados com os efeitos das obras na biodiversidade e no turismo da região. A Milo Investimentos, por sua vez, não se manifestou sobre os questionamentos feitos pela imprensa, e a prefeitura também não respondeu aos pedidos de esclarecimento.
Além disso, a família Vorcaro, cuja reputação já estava em cheque devido a investigações em curso, voltou a ser foco de atenção após a operação Compliance Zero da Polícia Federal, que investiga supostas fraudes financeiras relacionadas ao Banco Master. As buscas, realizadas em diferentes estados, resultaram no cumprimento de 42 mandados e na apreensão de bens e valores que ultrapassam R$ 5,7 bilhões.


