A Trajetória de Caboquinho na Cultura Popular
Caboquinho, figura emblemática da música popular e do direito na Bahia, é lembrado não apenas por seus feitos artísticos, mas também pela luta pelos repentistas e poetas populares. Um exemplo de perseverança, ele se destacou na defesa de sua categoria, conquistando vitórias importantes, como o Festival e a Associação dos Violeiros e Trovadores. Com um legado que perdura, Caboquinho faleceu em 19 de maio de 2020, deixando uma marca indelével na cultura nordestina.
A poesia de repente, uma expressão cultural rica e variada, conta com diversas modalidades, como martelo alagoano e oitavo rebatido. Embora esses estilos sejam originalmente mais comuns em outros estados do Nordeste, a Bahia também viu emergirem talentos excepcionais, como Caboquinho, que tem suas raízes na cidade de Serrinha, junto com seu pai, o também repentista Dadinho (Manoel Crispim Ramos).
Os Primeiros Passos na Música
Nascido em Bela Vista, Caboquinho recebeu os primeiros ensinamentos da viola e da rima ao lado de seu pai. Sua busca por conhecimento o levou a deixar Serrinha e se mudar para Feira de Santana, onde poderia expandir seus horizontes e atingir o sonho de cursar uma faculdade. Essa mudança ocorreu no início da década de 1960 e se mostrou decisiva para sua carreira. A ligação com o rádio foi fundamental, e em 5 de janeiro de 1965, ele e seu pai estrearam no programa ‘Nordeste de Ponta a Ponta’, na Rádio Sociedade de Feira. Este momento representou uma inovação na programação local, que até então era dominada pela sanfona e outros ritmos.
O sucesso do programa atraiu os maiores repentistas do Nordeste à cidade, tornando Feira de Santana um polo cultural e referência em repente. O impacto da programação foi tão significativo que, em 1975, Caboquinho, já consolidado como uma figura respeitada no gênero, idealizou o I Festival de Violeiros do Nordeste. O evento, realizado na Biblioteca Municipal Arnold Silva, foi um marco, recebendo um público tão grande que superou a capacidade do local.
A Luta pela Valorização dos Artistas Populares
O festival, apoiado pelo prefeito José Falcão da Silva e pelo secretário de Turismo, Itaracy Pedra Branca, foi um sucesso estrondoso e viu os Irmãos Bandeira, renomados repentistas do Ceará, saírem como vencedores. Entretanto, as conquistas de Caboquinho não se limitaram ao sucesso individual. Em agosto de 1975, ele fundou a Associação de Violeiros e Trovadores da Bahia (AVTB), um passo crucial na valorização dos artistas de repente, que até então eram negligenciados. Essa associação proporcionou aos violeiros um espaço de reconhecimento e união.
Caboquinho dedicou-se incansavelmente à AVTB, construindo uma sede e mantendo viva a tradição do Festival, mesmo após a triste perda de seu pai, aos 80 anos, em 2003. Sua trajetória não se restringiu à música; após completar o curso de Magistério, ele se formou em Direito, iniciando uma nova fase de sua vida como advogado, atuando frequentemente no Fórum Filinto Bastos.
Um Legado de Dignidade e Perseverança
José Crispim Ramos, o Caboquinho, deixou este mundo em 19 de maio de 2020, um homem que, ao longo de sua vida, conquistou respeito e admiração de todos. Sua existência é um testemunho de como um rapaz simples, oriundo do interior, pode construir uma narrativa de sucesso e dignidade. Caboquinho não apenas fez história na música popular brasileira, mas também se tornou um exemplo de luta e perseverança para muitos. Sua contribuição para a consolidação do repente e da viola na Bahia é inegável, e sua memória viverá por meio de suas canções e do legado deixado na cultura nordestina.


