Ciclones em alta: cenário preocupante para o Sul do Brasil
O recente ciclone-bomba que atingiu o Rio Grande do Sul, com rajadas de vento que alcançaram até 100 quilômetros por hora em várias cidades, ilustra um fenômeno que pode se tornar mais comum nos próximos meses. A meteorologista Estael Sias, sócia-diretora da MetSul, explica que a combinação das condições naturais da região, o avanço do El Niño e as mudanças climáticas contribuem para a intensificação desses eventos extremos no Sul do país.
El Niño e a intensificação dos eventos climáticos
Em entrevista ao VEJA em Foco, apresentada por Marcela Rahal, Estael Sias destacou que o El Niño já se encontra em forte intensidade e deve se fortalecer até o final do ano, chegando ao seu auge. Esse fenômeno eleva a frequência das chuvas e de eventos climáticos severos, como tempestades, tornados, microexplosões e ciclones, que fazem parte da climatologia da região sulista.
Segundo a meteorologista, a geografia do Sul do Brasil favorece a formação de ciclones e linhas de instabilidade que geram supercélulas e tornados. A influência do El Niño, somada aos efeitos das mudanças climáticas, tende a agravar esse quadro, aumentando a ocorrência e a intensidade dos fenômenos.
O papel das mudanças climáticas na formação dos ciclones
Estael explica que estudos indicam que o aquecimento global pode contribuir para a formação de ciclones mais potentes. Ondas de calor no oceano, com águas mais quentes, e períodos prolongados de temperaturas elevadas atuam como combustível para sistemas atmosféricos intensos, que impactam diretamente regiões como o Sul do Brasil.
Com base nos dados dos últimos anos, a meteorologista observa que essa realidade já é perceptível, apontando para um aumento na frequência de temporais, excesso de chuvas, risco de enchentes e outros eventos extremos, não só no Rio Grande do Sul, mas também em Santa Catarina, Paraná e países vizinhos.
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Por que o Sul é propício à formação de ciclones?
A faixa de latitudes médias que engloba o Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina caracteriza-se por um clima de transição, com grande contraste térmico, tornando-se um ambiente propício para a formação frequente de ciclones. Quando esses sistemas se aproximam do continente, interferem diretamente nas condições atmosféricas, ganhando destaque nos boletins meteorológicos.
O ciclone-bomba é marcado pela rapidez da intensificação, com uma queda abrupta da pressão atmosférica em até 24 horas. No caso analisado, o sistema se formou a sudeste do Rio Grande do Sul e atingiu uma pressão central excepcionalmente baixa para o Atlântico Sul.
O impacto do ciclone e o que já passou
Para Estael, o período crítico foi entre quinta e sexta-feira, quando o ciclone causou danos significativos, rajadas fortes e um tornado no sul do estado. Ela ressalta que, se o sistema tivesse permanecido mais tempo próximo ao continente, a severidade poderia ter sido maior. Como comparação, mencionou um ciclone de julho de 2020 que atravessou os estados do Sul e resultou em 13 mortes.
No episódio atual, o deslocamento rápido do ciclone para o alto-mar diminuiu o tempo de exposição ao risco no continente.
Previsões para os próximos dias e efeitos indiretos
O ciclone seguirá em linha reta para o alto-mar, sem previsão de aproximação direta a São Paulo ou Rio de Janeiro. Porém, seus efeitos poderão ser sentidos indiretamente, acelerando a passagem de uma frente fria e interagindo com o ar quente presente no centro do país, resultando em chuvas no leste desses estados.
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Além disso, mar agitado e ressaca estão previstos para os litorais do Sul e Sudeste, provocados pelo deslocamento do ciclone intenso sobre o oceano.
Previsibilidade dos ciclones e desafios na meteorologia
Segundo Estael Sias, ciclones são sistemas de grande escala que podem ser previstos com boa antecedência. No caso recente, os modelos indicaram a formação do ciclone cerca de sete dias antes, embora ainda houvesse incerteza se ele se tornaria um ciclone-bomba.
Com a aproximação do sistema, os modelos confirmaram a intensificação rápida e a localização do fenômeno. Com cerca de 72 horas de antecedência, foi possível identificar a formação da linha de temporais que afetou Uruguai, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Ela ressalta, contudo, que ainda existem limitações para prever tempestades de verão muito localizadas, que surgem rapidamente e atingem áreas restritas. Para fenômenos de grande escala, como os ciclones, a previsibilidade já é considerada bastante eficiente.

