Desafios na Cadeia Produtiva do Chocolate
Neste período de Páscoa, enquanto muitos desfrutam do saboroso chocolate, os produtores de cacau do sul da Bahia estão envolvidos em uma intensa disputa com a indústria moageira. A Associação Nacional de Produtores de Cacau (ANPC), que representa cerca de 10 mil produtores em todo o Brasil, com um foco de aproximadamente 60% na Bahia, denuncia a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) por práticas que, segundo eles, desvalorizam o preço do produto e afetam negativamente o cultivo nacional.
A situação na cadeia produtiva do chocolate se intensifica em um momento em que a produção nacional cresce, mas os preços pagos aos produtores estão em queda. De acordo com Roberto Rabelo, vice-presidente da ANPC, o atual cenário é uma combinação de fatores de mercado e práticas que, na visão da associação, distorcem a concorrência. “Atualmente, enfrentamos um paradoxo: a produção está aumentando, com uma expectativa de safra maior, no entanto, o produtor recebe menos. Isso não é uma dinâmica de mercado saudável, mas sim fruto de uma interferência artificial nos preços”, destaca.
Rabelo critica principalmente a importação de cerca de 40 mil toneladas de cacau no início do ano, numa época em que o mercado interno não enfrentava escassez. “As indústrias optaram por abastecer seus estoques com produtos importados, elevando a pressão sobre os preços no mercado nacional. O peso dessa conta recai sobre o agricultor brasileiro”, enfatiza.
Descompasso Entre Custo e Preço ao Produtor
O hiato entre o preço internacional e o montante que chega ao campo é alarmante. Enquanto a cotação global gira em torno de US$ 3.450 por tonelada, o produtor brasileiro recebe em média apenas cerca de US$ 2.300. No mercado interno, a arroba do cacau (15 quilos) foi vendida a R$ 130, um valor substancialmente inferior ao custo de produção, que gira em torno de R$ 355. Atualmente, o preço varia entre R$ 180 e R$ 200.
“Não há atividade que se sustente vendendo abaixo do custo. O produtor está se descapitalizando, reduzindo sua equipe, deixando de investir e, em diversos casos, acumulando prejuízos”, argumenta o vice-presidente da ANPC.
Esse quadro impacta diretamente a realidade no campo, com relatos de redução no número de trabalhadores e dificuldades em manter as atividades. “Eu mesmo já tive 14 funcionários e agora só tenho cinco. Essa realidade se reflete na economia local, pois a queda de renda no campo resulta em menos consumo nas cidades”, observa Rabelo.
Concorrência Internacional e Questões de Qualidade
A competitividade com o cacau africano é outro aspecto preocupante. A ANPC aponta que a produção em países africanos ocorre a custos mais baixos, em parte pela falta de fiscalização trabalhista rigorosa, como a encontrada no Brasil. “Aqui seguimos regulamentos que garantem direitos, o que encarece os custos, enquanto lá fora a realidade é diferente. A entrada desse produto no Brasil, sem controle adequado, gera uma competição desigual”, comenta.
A crise também reacende a discussão sobre a qualidade do chocolate consumido no Brasil. Rabelo aponta que a pressão para baixar custos tem levado à redução do teor de cacau nos produtos finais. “Hoje, encontramos chocolates no mercado com apenas 2% ou 3% de cacau. Isso não é apenas um problema para os produtores, mas também para os consumidores”, ressalta.
Esse cenário favorece o Projeto de Lei (PL) 1769, que propõe um percentual mínimo de 35% de cacau para que um produto possa ser considerado chocolate. “Essa é uma medida que pode beneficiar toda a cadeia produtiva, desde o produtor até o consumidor final”, acredita Rabelo. O projeto, de autoria do senador Zequinha Marinho (PODEMOS/PA), já passou pela Câmara dos Deputados e aguarda votação no Senado.
Mobilização dos Produtores Diante de Desafios
Em resposta a essa situação, os produtores têm aumentado suas mobilizações, tendo realizado mais de 15 protestos nas cidades do sul da Bahia, com demandas que incluem a investigação de práticas anticoncorrenciais, controle das importações e a revisão das políticas de preços.
“Não estamos contra a indústria ou o mercado. O que buscamos é previsibilidade, equilíbrio e respeito à produção nacional. Caso contrário, corremos o risco de comprometer uma cadeia produtiva que sustenta milhares de famílias”, afirma Rabelo.
Com a nova safra iniciando em abril e se estendendo até setembro, os produtores esperam uma reavaliação das condições de mercado. Se isso não ocorrer, o setor teme que, mesmo com o aumento da produção, a crise no campo se aprofunde ainda mais. Para a safra que começou em 1º de abril e vai até 30 de setembro, a ANPC projeta uma produção de 150 mil a 160 mil toneladas de cacau tanto na Bahia quanto no Pará, superando as 120 mil toneladas da safra anterior.


