Desafios da Medicina na Bahia
A medicina na Bahia vive um de seus momentos mais críticos. Recentes demissões em massa, contratos de trabalho instáveis, atrasos frequentes nos pagamentos e a ausência de garantias trabalhistas tornaram-se parte do cotidiano de médicos e médicas em todo o estado. O que antes era uma exceção, restrita a algumas unidades ou regiões, agora se tornou uma triste realidade, afetando profissionais de todas as idades, especialidades e tempos de carreira. Médicos se veem questionando: por que estamos enfrentando essa situação agora? Onde falhamos?
Um Estado com História na Medicina
É irônico e contraditório que essa crise ocorra na Bahia, berço da primeira Faculdade de Medicina do Brasil, fundada em 1808, e de um dos sindicatos mais antigos do país, o SINDIMED, estabelecido em 1934. O estado que ajudou a moldar a medicina no Brasil agora forma profissionais que entram em um mercado caracterizado pela precarização severa, sem que a principal entidade de classe esteja desempenhando seu papel histórico de defesa da categoria.
A Crise Estrutural
Essa crise não surgiu de maneira repentina; ela é o resultado de um processo gradual e complexo. A flexibilização das leis trabalhistas e decisões administrativas têm tratado os médicos não mais como uma carreira estratégica de Estado, mas como prestadores de serviços indiferenciados. A Reforma Trabalhista (Lei nº 13.467/2017) intensificou essa situação ao possibilitar a terceirização ampla de atividades-fim, abrindo espaço para a chamada “pejotização”, onde vínculos celetistas são substituídos por contratos de pessoa jurídica. Esse modelo visa reduzir custos, eliminar direitos trabalhistas e transferir riscos para os profissionais.
Impactos Alarmantes na Categoria
Os impactos dessa mudança são visíveis e preocupantes. Dados da Demografia Médica no Brasil 2025 mostram que a proporção de médicos com vínculo formal caiu de 56% para 36% em apenas dez anos. No setor público, os vínculos estatutários despencaram de 40,4% para 16,9% entre 2012 e 2023. A Bahia é um exemplo evidente dessa tendência, uma vez que o último concurso público amplo para médicos no estado foi realizado em 2008. Isso representa quase duas décadas sem uma reposição adequada, fruto de uma decisão política clara que não vem sendo assumida.
A Realidade dos Médicos Baianos
Trabalhar como pessoa jurídica se tornou a única alternativa para muitos médicos na Bahia. Benefícios como férias, 13º salário, licença remunerada e contribuição previdenciária regular desapareceram, sem que isso proporcionasse autonomia. Pelo contrário, médicos são submetidos a jornadas rígidas e a metas e exigências típicas do regime celetista, mas sem qualquer proteção legal. O resultado é um modelo que fragiliza o profissional e compromete a organização dos serviços de saúde, onde equipes inteiras podem ser desmanteladas repentinamente.
O Enfraquecimento do SINDIMED
Esse quadro é agravado pela crise de confiança no SINDIMED, que já foi uma entidade proeminente em conquistas históricas, como o Concurso Público Estadual de 2008 e o reconhecimento da Gratificação do Incentivo ao Desempenho (GID) em 2009. Hoje, a atual gestão tem adotado uma postura conciliatória com gestores e alinhada aos interesses patronais, priorizando acordos nos bastidores e a contenção de mobilizações. Isso gerou uma ausência de greves, assembleias deliberativas e tensões públicas, que foram ferramentas centrais da ação sindical no passado.
Discrepâncias na Remuneração
Outro ponto que chama a atenção é a discrepância entre a realidade financeira enfrentada pela maioria dos médicos e a estrutura de remuneração da alta direção sindical. Segundo documentos públicos, a remuneração aprovada para 2026 será de R$919.800 para diretores e R$1.399.056 para serviços jurídicos, mesmo em um cenário de retração de serviços e fechamento de sedes regionais.
A Necessidade de Reconstrução
Como ex-presidentes do Sindicato dos Médicos da Bahia, afirmamos com responsabilidade: para milhares de médicos baianos, a precarização do trabalho avançou enquanto a representação sindical se esvazia. Uma entidade que outrora gozou de credibilidade agora enfrenta questionamentos éticos e políticos, até mesmo entre seus filiados. Aceitar essa fragilização institucional é permitir a erosão da medicina como carreira estruturada no estado.
Ainda há tempo para reconstruir. Mas isso requer coragem política, o resgate do papel histórico do sindicato e a reintegração do trabalho médico no centro do debate público. Colegas, diante da insatisfação com a situação atual da medicina e a condução do SINDIMED, é essencial que permaneçamos unidos. O silêncio neste momento não é prudência; é omissão.
Assinam:
Alfredo Boa Sorte (ex-presidente do Sindimed)
Antônio do Vale Filho (ex-presidente do Sindimed)
Celso Cotrim Coelho (ex-presidente do Sindimed)
Francisco Magalhães (ex-presidente do Sindimed)
Gil Freire Barbosa (ex-presidente do Sindimed)


