Análise Profunda sobre a Perda de Posição dos EUA em Setores Cruciais
A recente escalada de tensão no Oriente Médio, particularmente entre EUA, Israel e Irã, trouxe à tona não apenas questões geopolíticas, mas também uma série de impactos econômicos que afetam diretamente a educação e a inovação nos Estados Unidos. O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, aponta que o país enfrenta um retrocesso alarmante em diversas frentes. Um dos dados mais preocupantes refere-se ao desempenho educacional: segundo o exame Pisa, a nota dos alunos americanos em matemática caiu de 483 para 465 desde 2003. Este resultado não apenas ficou abaixo da média da OCDE, mas também é 60 pontos inferior ao que foi registrado pela Coreia do Sul, uma nação reconhecida por seu sistema educacional eficaz.
Além disso, a luta pela inovação também se torna evidente quando analisamos o número de patentes. A China ultrapassou os EUA nesse quesito em 2011, e em 2024, já possuía três vezes mais patentes do que os americanos. O cenário se agrava ainda mais com o investimento em pesquisa e desenvolvimento, que, enquanto era de 67% estatal no passado, hoje se restringe a apenas 18%. O relatório da consultoria Eurasia Group, divulgado no começo deste ano, aponta que a infraestrutura de diversos estados, especialmente no Sul, enfrenta sérias dificuldades.
Impactos da Tensão Internacional na Educação e Inovação
A crise atual, marcada pelos ataques entre Irã, Israel e EUA, não é apenas uma questão de segurança, mas resulta em efeitos colaterais significativos, como a maior interrupção no transporte aéreo desde a pandemia. Para Vale, esse retrocesso nas últimas décadas, iniciado nas décadas de 1970 e 1980, coincide com o aumento da desigualdade e cortes de impostos que beneficiaram a população mais rica, resultando em queda na produtividade. Essa situação alimenta uma insatisfação crescente que culminou na ascensão de Trump e sua administração.
— Os Estados Unidos continuam sendo uma potência econômica, com um PIB impressionante e influência global, mas a liderança em várias áreas já não é mais incontestável, avalia Vale.
A Queda no Investimento em Inovação
A geração de energia também apresenta um quadro desfavorável. Embora a maior parte do investimento em inovação provenha do setor privado, Vale ressalta que a ciência fundamental é realizada nas universidades, que estão sendo alvo de cortes de verba por parte do governo. A China, por sua vez, está investindo fortemente em educação e formando um maior número de engenheiros, consolidando-se como a capital da inovação mundial.
Carlos Primo Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor do Banco Mundial, concorda com a análise de Vale ao afirmar que, apesar de os EUA manterem sua posição como líderes em inovação e possuírem a estrutura militar mais poderosa do mundo, as decisões tomadas por Trump estão enfraquecendo os pilares da inovação. A redução do investimento em universidades e instituições de pesquisa poderá impactar, a médio prazo, a capacidade de crescimento dos Estados Unidos nessa área. A crescente evidência do crescimento das publicações científicas da China e o aumento do número de patentes evidenciam essa tendência.
Desafios no Setor Energético e a Formação de Talentos
O relatório da Eurasia aponta que, enquanto a geração de energia nos EUA permanece em torno de 4 mil terawatts/hora desde 2000, a China saltou de menos de 2 mil para mais de 10 mil. A diferença é alarmante e reflete uma política de investimento que caminha na contramão do que os EUA estão fazendo, especialmente sob a administração atual, que tem se afastado de energias renováveis como solar e eólica.
Além disso, a desvalorização do dólar em relação a outras moedas e a diminuição na captação de talentos internacionais devido à rigidez nas políticas de imigração também estão contribuindo para uma diminuição da competitividade econômica americana. Segundo Braga, a China já forma quatro vezes mais profissionais nas áreas de ciência, tecnologia e engenharia do que os EUA, o que resulta em uma diferença tecnológica que está se reduzindo rapidamente.
Intervencionismo e suas Consequências
Outro fator que agrava a competitividade americana é a crescente intervenção estatal. Medidas como a proibição do uso de tecnologia de inteligência artificial por agências federais, conforme decidido por Trump, e a conversão de subsídios em participação acionária em empresas como a Intel, demonstram um modelo de capitalismo que pode comprometer o dinamismo econômico do país.
Embora o embaixador Rubens Ricupero tenha uma visão mais cautelosa sobre a perda da hegemonia americana, indicando que a inovação ainda é uma força constante, ele reconhece que as intervenções podem ser prejudiciais para a economia.
Em resumo, os Estados Unidos, enquanto continuam a manter uma posição de destaque em diversos setores, enfrentam desafios sérios que podem impactar sua hegemonia global. As decisões tomadas hoje moldarão o futuro do país nas próximas décadas, e a maneira como a educação, a inovação e a infraestrutura serão tratadas será crucial para determinar o caminho a seguir.


