Exame Revela Desempenho Abaixo do Esperado em Cursos de Medicina
Uma análise reveladora sobre a qualidade da formação médica no Brasil mostra que três em cada dez cursos de Medicina não atingiram os padrões mínimos em um exame que avalia a formação dos profissionais. O Enamed, prova que analisou a performance de 351 instituições, revelou que 99 delas receberam notas que as colocam em risco de sanções por parte do Ministério da Educação (MEC).
Do total de cursos avaliados, 340 estão sob a supervisão do MEC, enquanto as graduações municipais e estaduais não estão incluídas nesse processo de avaliação. Com a publicação dos resultados, o ministério já iniciou processos administrativos para supervisionar os cursos com notas mais baixas, variando de 1 a 2. As penalidades podem incluir a suspensão do vestibular e a limitação do número de vagas, além de exigirem que as instituições apresentem justificativas em um prazo de 30 dias.
Desempenho dos Estudantes em Foco
O Enamed avaliou aproximadamente 89.000 alunos, incluindo aqueles que estão em fase de conclusão de curso. Neste ano, os estudantes tiveram a opção de utilizar suas notas também para o Exame Nacional de Residência (Enare), o que, segundo o MEC, aumentou a motivação dos avaliados. Porém, dos cerca de 39 mil alunos que estavam prestes a se formar, apenas 67% conseguiram atingir a nota mínima de proficiência, o que demonstra que cerca de 13 mil estudantes não estão prontos para a prática profissional.
O desempenho foi especialmente preocupante nas instituições de ensino superior privadas com fins lucrativos, onde 61% dos cursos recebidos notas insatisfatórias, e nas instituições municipais, que apresentaram um alarmante 87% de cursos com notas 1 e 2. Em contrapartida, as universidades federais e estaduais se destacaram, apresentando os melhores resultados nas faixas 4 e 5.
Reações ao Resultado do Exame
O ministro da Educação, Camilo Santana, comentou sobre a situação, reconhecendo a importância das instituições privadas para a ampliação das vagas em Medicina no Brasil, mas enfatizou que a qualidade da formação deve ser uma prioridade. “Queremos garantir não apenas a quantidade, mas também a qualidade dos cursos oferecidos”, afirmou.
César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), descreveu os resultados do exame como “caóticos” e expressou preocupações sobre a formação de novos médicos que não atendem aos critérios necessários. Ele alertou que, mesmo entre aqueles que alcançaram o nível 3, não estão devidamente preparados para a prática.
A Federação Nacional dos Médicos (FNM) também se manifestou, lembrando que tramita no Congresso um projeto de lei que exige uma prova de proficiência para os médicos recém-formados. Apesar de o governo federal não apoiar a proposta, o ministro Camilo Santana já indicou que o Enamed poderia cumprir essa função no futuro.
Uma Questão Estrutural
Alexandre Nicolini, especialista em gestão acadêmica, apontou que os resultados do Enamed revelaram um problema estrutural que avaliações anteriores não conseguiam detectar com clareza. Ele defende que a responsabilidade de avaliar a qualidade da formação cabe ao MEC, e sugere que um exame final poderia ser elaborado em colaboração com o Inep, órgão capaz de criar avaliações adequadas.
A ANUP (Associação Nacional das Universidades Particulares) e a ABMES (Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior) também se manifestaram, expressando preocupações sobre o processo de avaliação e as consequências severas impostas às instituições, como a restrição de vagas e a imposição de sanções sem um período de transição adequado.
A situação atual reforça a necessidade de um diálogo mais aberto entre o MEC e as instituições de ensino, visando a melhoria da qualidade na formação médica e a segurança da população atendida pelos futuros profissionais da saúde.


