Dívidas no Brasil: Um Desafio Persistente
O Brasil finalizou 2025 com um crescimento do PIB de 2,3%, uma taxa de desemprego em seu menor nível histórico e uma renda média recorde. Apesar desses indicadores econômicos positivos, o endividamento da população continua alarmante, com o cartão de crédito liderando o ranking das dívidas no país.
Dados da Recovery, revelados ao g1, indicam que ao menos 19 milhões de brasileiros estavam endividados com cartão de crédito no ano passado. Esse número reflete apenas a base de clientes da empresa, que gerencia dívidas de aproximadamente 34 milhões de pessoas no Brasil.
Embora tenha havido uma leve redução de 2% em relação ao ano anterior, o cartão de crédito permanece como o principal responsável pela inadimplência. O cenário de endividamento é preocupante, com mais de 80 milhões de débitos em atraso registrados em 2025. Além disso, cerca de 6 milhões de dívidas foram renegociadas, transformadas em acordos para facilitar o pagamento, mas apenas 193 mil desses registros são provenientes de empresas, a maioria sendo de pessoas físicas.
Distribuição Regional e Modalidades de Crédito
A análise geográfica das dívidas revela que São Paulo concentra cerca de 4,4 milhões de endividados com cartão de crédito, seguida pelo Rio de Janeiro, com aproximadamente 2,4 milhões, e Bahia, com cerca de 1,4 milhão. As dificuldades financeiras não se restringem a essa modalidade; as dívidas relacionadas a empréstimos e ao cheque especial também aumentaram cerca de 7% no último ano, subindo de 12,7 milhões para 13,5 milhões de registros.
No Sudeste, os maiores números também são alarmantes, com São Paulo apresentando cerca de 3,8 milhões de pessoas endividadas, seguido por 1,6 milhão no Rio de Janeiro e 1,2 milhão em Minas Gerais.
Um Cenário de Juros Altos e Inflação Controlada
O aumento da inadimplência ocorre em um contexto de crédito mais caro. Em 2025, o Banco Central elevou a taxa básica de juros em 2,25 pontos percentuais, atingindo uma taxa de 15% ao ano, o maior nível em quase 20 anos. Esse cenário encarece o acesso a crédito, tornando o rotativo do cartão, os parcelamentos e os empréstimos um peso ainda maior no orçamento das famílias, dificultando a reorganização financeira de quem já enfrenta dificuldades.
A inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), fechou o ano em 4,26%, o melhor resultado desde 2018. No entanto, isso não significa que os preços estão caindo, mas sim que os reajustes estão em um ritmo mais lento. Para muitas famílias, o orçamento continuou apertado, refletido em um crescimento modesto do consumo, que avançou apenas 1,3% em 2025, bem abaixo do crescimento de 5,1% registrado em 2024.
Como o g1 já destacou, o consumo das famílias parece depender exclusivamente da renda do trabalho, sem estímulos adicionais. Nesse contexto, o cartão de crédito se apresenta como uma solução rápida para fechar as contas mensais, mas pode facilmente se tornar uma dívida de longo prazo, especialmente quando os pagamentos são atrasados e os juros elevados.
Rumo a 2026: A Necessidade de Cautela
Helena Passos, head de Dados e Planejamento na Recovery, alerta que o próximo ano será crucial para a reestruturação financeira de milhões de brasileiros endividados. “A situação exige cautela e uma abordagem consciente na renegociação de dívidas”, afirma. Para ela, é fundamental promover a educação financeira e implementar políticas que incentivem o crédito responsável, evitando, assim, a repetição do ciclo de superendividamento.
A especialista também destaca uma mudança significativa no perfil das renegociações, que estão cada vez mais concentradas em canais digitais, refletindo uma transformação no comportamento dos consumidores em busca de soluções para suas dívidas.


