Uma Nova Era Econômica
A recente guerra com o Irã impactou drasticamente o comércio no Golfo Pérsico, resultando em um aumento de mais de 50% nos preços do petróleo globalmente. Essa situação provocou um impacto quase imediato nos custos da gasolina, representando a maior disrupção já registrada no mercado petrolífero mundial, o que pode acelerar a inflação ao longo deste ano. No entanto, a economia dos Estados Unidos se mostra cada vez menos dependente do petróleo, um fenômeno que se intensificou nas últimas décadas.
Os dados evidenciam que os Estados Unidos utilizam menos energia para cada unidade de produção econômica em comparação com o passado. Em termos econômicos, podemos dizer que a economia americana se tornou menos “intensiva em energia”. Existem algumas razões claras para isso. Primeiro, a significativa transição da economia dos EUA para serviços como saúde, varejo e entretenimento, setores que demandam menos energia em comparação com indústrias tradicionais. Enquanto as indústrias de bens empregam cerca de 21 milhões de trabalhadores, o setor de serviços já conta com 114 milhões de empregos.
Em segundo lugar, a eficiência das máquinas utilizadas atualmente pelos americanos tem avançado consideravelmente, uma tendência que teve início após as crises de preços do petróleo na década de 1970. Segundo o Departamento de Transportes, o veículo médio leve atual apresenta uma eficiência de 11,9 km/litro de gasolina, em contraste com 5,53 km/litro registrados em 1975. O consumo de gasolina, após um aumento até 2007, se estabilizou desde então, especialmente com a crescente adoção de veículos elétricos.
Essa evolução resultou na diminuição da proporção dos gastos com gasolina em relação à renda disponível para despesas não essenciais. Economistas do Wells Fargo abordam que um aumento sustentado de 50% nos preços do petróleo, como o que estamos vivenciando, teria um impacto muito maior nos anos 1980 do que hoje, quando se estima uma redução de aproximadamente 1 ponto percentual no crescimento anual dos gastos do consumidor.
O Papel dos Estados Unidos no Mercado Global de Petróleo
Hoje, os Estados Unidos são considerados o maior produtor mundial de petróleo e gás, alterando a dinâmica do mercado que historicamente dependia do Oriente Médio. O crescimento da produção, por meio de técnicas como o fraturamento hidráulico, especialmente em Dakota do Norte e no oeste do Texas, transformou o cenário. Essa nova oferta foi responsável pela queda dos preços globais durante a década de 2010, especialmente após o Congresso suspender a proibição de exportações de gás natural em 2015.
Esse cenário teórico indica que os lucros gerados pela produção de petróleo no território americano permanecem dentro do país, possibilitando redirecionamentos para outros investimentos, com o boom do fraturamento hidráulico contribuindo para um aumento de 1% no produto interno bruto. Contudo, a disposição dos perfuradores americanos em reassumir o papel de “produtor de ajuste” neste contexto incerto é questionável. A intensa concorrência de preços durante o período de expansão do fraturamento hidráulico resultou em perdas massivas para investidores, levando muitas empresas à falência devido à incapacidade de arcar com as dívidas contraídas para infraestrutura.
Christiane Baumeister, economista da Universidade de Notre Dame, expressa ceticismo em relação à produção: “Não percebo muitas movimentações do lado da produção que possam amenizar os impactos sobre a economia americana. As empresas priorizam, acima de tudo, os retornos aos acionistas, preferindo aproveitar o momento atual para aumentar lucros em vez de reinvestir na expansão da produção.”
Desafios e Futuro da Indústria Petrolífera
Ademais, as tarifas sobre aço e alumínio elevaram os custos dos materiais essenciais como tubos e válvulas, desincentivando o aumento da produção. Atualmente, o número de plataformas de petróleo em atividade nos Estados Unidos registrou uma queda de 7% em comparação ao ano passado. Apesar da produção recorde de petróleo e gás, o setor não tem gerado muitos empregos, já que as empresas aprenderam a operar com menos mão de obra. O setor, que atualmente emprega cerca de 363 mil pessoas, corresponde a apenas 0,2% do total de empregos no país.
Curiosamente, mesmo com o crescimento na produção de petróleo, a indústria não se tornou uma parte significativa dos investimentos dos americanos. Tradicionalmente, empresas como Exxon Mobil e Chevron figuravam entre as mais valiosas do mercado acionário, mas atualmente, o setor de petróleo e gás representa apenas 3,2% do índice S&P 500, uma queda significativa em relação aos 5,5% de uma década atrás. As ações do setor enfrentaram um desempenho inferior ao índice geral, até que a recente alta dos preços do petróleo melhorou seus resultados após os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã.
Clark Williams-Derry, analista do Institute for Energy Economics and Financial Analysis, comenta que a estratégia financeira da indústria de petróleo e gás gira em torno de uma expectativa de guerras: “Eles ganham dinheiro em condições de crise. Precisam de um grande pico de preços a cada poucos anos para equilibrar as contas.”


