Transformações na Educação com a IA
Um novo modelo educacional, que surgiu nos Estados Unidos em 2025, tem atraído a atenção de educadores e da mídia mundial ao propor a eliminação dos professores da sala de aula. Chamado de Alpha School, esse sistema educativo, com filiais em pelo menos três estados americanos, oferece aos alunos apenas duas horas de aulas formais por dia, focando em matemática, língua e ciências. O aprendizado se dá exclusivamente através da interação com sistemas de Inteligência Artificial (IA), que monitoram em tempo real o progresso individual dos estudantes.
A influência da IA nas salas de aula é inegável. Uma pesquisa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e da Tecnologia (INCT-CPCT), realizada em 2024, revelou que 22% dos jovens preferem o ChatGPT como fonte de informação em ciência e tecnologia, enquanto apenas 2% recorrem a livros e artigos tradicionais. Além disso, muitos alunos utilizam essas ferramentas digitais não apenas para buscar informações, mas também para facilitar suas tarefas acadêmicas, o que, em várias situações, pode comprometer etapas essenciais do processo de aprendizagem. Educadores e pedagogos, por sua vez, debatem o espaço e os limites da utilização dessas tecnologias no ensino.
Reflexões sobre a Formação de Professores em Tempos de IA
Em resposta a essas questões, o VII Congresso Nacional de Formação de Professores e o XVII Congresso Estadual Paulista de Formação de Educadores incluíram uma mesa-redonda intitulada “A formação de professores em tempos de IA: o que se conserva e o que precisa mudar?”. O debate, mediado pela professora Claudia Maria de Lima, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Unesp, contou com a participação de educadores e estudantes de licenciatura.
Entre os debatedores estava Nelson Preto, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, membro da Academia de Ciências da Bahia e especialista em educação e cibercultura. Segundo Preto, a adoção da IA pelos alunos não é prejudicial por si só, contanto que seja mediada por um professor, evitando a substituição dos métodos tradicionais de ensino-aprendizagem.
O Uso Consciente da Tecnologia na Educação
Após o debate, Nelson Preto concedeu uma entrevista ao Jornal da Unesp, na qual abordou as transformações necessárias na formação docente para lidar com as IAs, as possibilidades educacionais dessas ferramentas e os riscos associados à substituição de professores por máquinas. Para Preto, o conhecimento tradicional não deve ser desconsiderado, mas sim integrado e reescrito conforme o contexto tecnológico atual.
“Quando discutimos tecnologia, frequentemente ouvimos previsões de que inovação vai substituir a anterior. No entanto, isso não se concretiza. A formação de professores deve incorporar métodos e soluções de épocas passadas para serem reinventados, assim como as tecnologias modernas estarão sujeitas a reinterpretações no futuro”, explica.
A Importância do Processo de Aprendizagem
Preto também reflete sobre como as IAs podem impactar o entendimento dos alunos sobre o processo de aprendizagem. Ele enfatiza que as dificuldades enfrentadas durante o estudo são essenciais para o desenvolvimento do raciocínio crítico. “Ao aplicar provas, eu valorizava mais o processo do que o resultado final. Se um aluno acertasse uma resposta por acaso, isso não valia tanto quanto um erro que demonstrasse o raciocínio correto. O aprendizado real acontece na construção do pensamento”, afirma.
Colaboração entre Universidades e Escoles
Quando questionado sobre a relação entre universidades e escolas, Preto defende que essa interação deve ser estratégica. “A colaboração não deve ser apenas uma contratação de serviços; deve haver um intercâmbio formativo. Assim, conseguiremos desenvolver pesquisas sobre o processo educativo de forma integrada e colaborativa”, comenta.
Os Perigos da Substituição de Educadores por IAs
Em um cenário global em que algumas escolas têm substituído professores por IAs, Preto alerta sobre os riscos dessa mudança. Embora essas tecnologias possam oferecer respostas rápidas, elas não promovem formação plena. Ele enfatiza que a educação vai além do acesso à informação, envolvendo cidadania e habilidades sociais que são fundamentais para a convivência em sociedade.
Por fim, a busca por educadores qualificados é essencial. Preto menciona que a demanda por educação é crescente, e investir na formação de professores é crucial para garantir que as novas gerações estejam bem preparadas. “Educação é um investimento, não um custo”, ressalta.


