Emendas Parlamentares e o Entretenimento: Um Casamento Polêmico
No início de março, antes de subir ao palco na pequena cidade de Malhador, em Sergipe, Wesley Safadão foi recebido com entusiasmo pelo prefeito Assisinho (PSD), que não escondeu a felicidade por concretizar o que chamava de ‘sonho’. Para isso, a presença do cantor no evento contou com uma emenda especial, conhecida como ‘emenda Pix’, do deputado Rodrigo Valadares (União-SE), que garantiu os R$ 900 mil do cachê do artista. Para se ter uma ideia, mesmo que cada um dos 11.712 moradores do município tivesse pago R$ 75 pelo ingresso, o valor ainda assim não cobriria o custo do show. Após a apresentação, Assisinho não hesitou em subir à bateria e foi elogiado por Safadão; logo em seguida, agradeceu ao deputado Valadares em um vídeo nas redes sociais afirmando: ‘Este é o meu deputado’.
Contudo, o show de Wesley Safadão não é uma exceção, mas sim um exemplo de uma prática recorrente e controversa que envolve o uso de emendas parlamentares para financiar eventos artísticos. Um levantamento realizado pela revista VEJA revelou que, no ano passado, 131 emendas Pix alocaram impressionantes R$ 61 milhões destinados a shows em diversas cidades do país. Entre os artistas que se apresentaram estão nomes de diferentes gêneros, como o sertanejo Leonardo, que se apresentou em cidades como São Romão (MG) e Tucano (BA), e o ícone do axé Bell Marques, que animou o público em Nossa Senhora das Dores e Simão Dias (SE). O cantor Mikael Santos, uma referência regional do arrocha, foi destaque em nada menos que nove shows custeados com verba federal, sendo sete em Sergipe e dois na Bahia, com um custo médio de R$ 200 mil por apresentação.
A Transparência das Emendas e os Riscos Financeiros
Ainda que o número real de emendas destinadas a shows possa ser até maior, a falta de clareza nos repasses frequentemente impede uma verificação adequada. Apesar de novas e rigorosas regras de transparência implementadas pelo STF no ano passado, muitos valores ainda permanecem sem prestação de contas meses após os eventos. Na tentativa de combater essa obscuridade, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) propôs um projeto de lei que exige que as prefeituras tornem públicas informações sobre cachês, datas, locais dos eventos, custos com infraestrutura e estimativas de público antes de sua realização. ‘Observamos shows com cachês absurdos, desproporcionais ao mercado e sem planejamento’, afirma o parlamentar. Vale ressaltar que ele mesmo liberou cerca de R$ 2 milhões para eventos em Sergipe em 2025, argumentando que não aprova emendas sem um planejamento claro.
O estado de Sergipe se destaca no cenário nacional, visto que quase metade das emendas destinadas a shows (46,1%) é oriunda de políticos sergipanos. O deputado Gustinho Ribeiro (PP-SE) é o recordista, ao destinar quase R$ 5 milhões para esse fim, incluindo a emenda de maior valor, de R$ 2,87 milhões, para eventos no município de Estância, onde apenas um deles foi realizado até agora. Ribeiro defende que as emendas passaram por uma análise rigorosa e que sua participação nos eventos é natural. ‘Não há restrições fora do período eleitoral’, ressalta.
Críticas e Sugestões de Melhoria para o Uso de Emendas
Um episódio que chamou a atenção nacional ocorreu durante um show de Wesley Safadão em Aracaju, onde a prefeita Emília Corrêa (Republicanos) subiu ao palco ao lado do deputado Thiago de Joaldo (PP) e mencionou que ele se comprometeu a trazer o cantor de volta com as emendas do próximo ano. Joaldo, ao perceber a repercussão, esclareceu que suas palavras foram mal interpretadas. ‘Não direciono emendas para artistas específicos; elas são destinadas ao município’, explica.
As críticas ao uso político das emendas são evidentes, assim como a desconexão entre os gastos e as prioridades do estado em áreas essenciais, como saúde e educação. ‘É fundamental que o foco esteja em oferecer acesso à cultura de maneira sustentável’, afirma Marcelo Flores, coordenador da pós-graduação em eventos na ESPM. Para o professor Sergio Firpo, do Insper, a questão não é se o recurso pode ser gasto em shows, mas sim se pode ser fiscalizado e justificado. ‘Essas emendas de baixa transparência aumentam o poder dos prefeitos, que não estão necessariamente alinhados com as demandas urgentes das comunidades’, completa.


