Espírito Santo em Ascensão no Cenário Agtech Nacional
O levantamento mais recente do Radar Agtech 2025 revelou a presença de 2.075 startups do agronegócio no Brasil, das quais 30 estão localizadas no Espírito Santo, representando cerca de 1,4% do total nacional. Embora esse número seja modesto quando comparado a estados como São Paulo, com 851 agtechs, ou Minas Gerais, com 187, ele esconde um movimento significativo. Desde 2019, quando o estado contava com apenas 9 startups, o ecossistema capixaba teve um crescimento notável, triplicando em apenas seis anos.
Este relatório, elaborado anualmente pela Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens, é considerado o principal mapeamento do setor agro no Brasil. Na edição atual, a região Sudeste concentra a maior parte das startups, com 1.146, que equivalem a 55,2% do total. O Espírito Santo, por sua vez, se junta a estados como a Bahia e Mato Grosso do Sul em uma categoria intermediária na região. Embora a concentração de startups no eixo São Paulo-Minas Gerais não seja uma novidade, o relatório destaca uma tendência de desconcentração regional, onde estados outrora considerados irrelevantes estão agora ganhando destaque.
A Governança como Diferencial no Crescimento
Antes da publicação deste estudo, um levantamento do IBEF Agro já indicava que o número de startups no setor agro capixaba havia atingido 30. Contudo, o verdadeiro diferencial do Espírito Santo no momento atual não se limita apenas ao aumento no número de empresas, mas à sua capacidade de governança.
No mês de março de 2025, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e a Secretaria de Estado de Agricultura (SEAG/ES) assinaram um Protocolo de Intenções, focado na inovação do setor agropecuário estadual. O Espírito Santo foi um dos 16 estados a receber consultores de inovação agropecuária do MAPA, inseridos em um programa voltado para a estruturação do setor. Três meses depois, o Funcitec aprovou unanimemente o Programa de Estruturação do Ecossistema de Inovação do Agro Capixaba, que contará com um investimento de R$ 6,5 milhões ao longo de 36 meses, de 2025 a 2028.
Segundo Michel Tesch, sub-secretário de agricultura do Espírito Santo, o estado está capitalizando sua capacidade de integração entre agentes e organizações, promovendo um diálogo que vai além do tradicional. “Estamos incorporando novas áreas de conhecimento que oferecem soluções aplicáveis ao setor agro, mas que não estão exclusivamente ligadas às ciências agrárias. Para nós, é fundamental resolver problemas reais e aumentar a competitividade do setor”, afirmou.
Metas Concretas e Estruturação do Ecossistema
O programa está alinhado ao Plano Estratégico de Desenvolvimento da Agricultura Capixaba, conhecido como PEDEAG 4, que abrange o período de 2023 a 2032 e tem a inovação como um eixo central. As metas estabelecidas incluem a realização de três mapeamentos do ecossistema de inovação agropecuária do estado, a capacitação de mil indivíduos em inovação, a aceleração de pelo menos quinze startups do setor agro, o apoio à transformação de cinco invenções em negócios e a promoção de quatro eventos de inovação.
Para assegurar que o programa avance de maneira concreta, foi instituído o Comitê Gestor do Ecossistema de Inovação do Agro Capixaba (CGEIA-ES). Este comitê, formalizado pela Portaria SEAG nº 033-R, de setembro de 2025, reúne representantes do governo federal, estadual, instituições de ensino e pesquisa, além do setor produtivo e do cooperativismo.
A abrangência do CGEIA-ES não se limita a questões burocráticas; ela busca uma ação estratégica. Historicamente, as inovações no agronegócio capixaba se mostraram fragmentadas, resultando em iniciativas isoladas. Assim, a formação de um comitê com representação abrangente visa conectar todos os elos da cadeia produtiva, desde o produtor até a pesquisa e o setor empresarial, tornando o programa uma verdadeira política de Estado com um horizonte claro de médio prazo.
Categorias em Alta e Oportunidades para Startups
O Radar Agtech 2025 também destaca as categorias que apresentam maior crescimento no ecossistema nacional, o que é crucial para que o Espírito Santo identifique áreas propensas à criação de startups competitivas. Entre elas, o sensoriamento remoto, com um crescimento de 95%, e a telemetria e automação, que aumentaram em 162%. Além disso, o controle biológico e manejo integrado de pragas avançou 220%. Essas categorias estão diretamente conectadas às cadeias produtivas do estado, como a cafeicultura, fruticultura e piscicultura, que demandam rastreabilidade, monitoramento de lavouras e menor uso de agroquímicos.
O grande diferencial do Programa de Estruturação do Agro Capixaba é a criação de uma infraestrutura institucional que possibilita o crescimento ordenado desse ecossistema. A capacitação de mil pessoas visa enriquecer o repertório técnico no campo, enquanto a interiorização da inovação busca levar conectividade e digitalização para além dos centros urbanos. Por fim, o objetivo de acelerar quinze startups em apenas 36 meses cria um pipeline de empresas com produtos validados no mercado agropecuário capixaba.
O Futuro do Agro Capixaba
Embora o Espírito Santo não tenha a intenção de competir com São Paulo em número de agtechs, ele possui um ativo que é desafiador para estados maiores: a escala humana. Com 78 municípios, cadeias produtivas organizadas e um cooperativismo sólido, o estado está em uma posição privilegiada para desenvolver um ecossistema de inovação agropecuária mais integrado do que a sua dimensão poderia sugerir. O programa aprovado pelo Funcitec representa um primeiro passo significativo nessa jornada, enquanto o Radar Agtech 2025 marca um novo início para o setor no estado.


