Alternativa viável para produtores em tempos de crise financeira no campo
Os recursos oferecidos pelo Plano Safra têm demonstrado ser insuficientes para atender às exigências do agronegócio brasileiro. Essa percepção é amplamente compartilhada entre agricultores e especialistas em crédito, conforme evidenciado em um evento recente realizado em São Paulo. Durante as discussões, destacou-se a importância de investimentos privados para preencher a lacuna deixada pelos recursos públicos.
“Os Fiagros são a nossa grande esperança”, afirma Moacir Teixeira, sócio-fundador da Ecoagro, uma empresa dedicada a oferecer soluções financeiras para o setor agropecuário. Segundo Teixeira, a integração do setor com o mercado de capitais é essencial para suprir essa demanda por financiamento.
No ano de 2025, o governo federal destinou R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 89 bilhões para a agricultura familiar. Contudo, o volume de contratações está aquém das expectativas. “O agronegócio não precisa apenas de recursos para custeio. Ele requer financiamentos a longo prazo, essenciais para uma melhor organização operacional”, enfatiza Teixeira.
É neste cenário que os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais, conhecidos como Fiagros, surgem como uma alternativa promissora para a captação de recursos no campo. Com um leque ampliado de opções de financiamento, os agricultores tornam-se menos dependentes de crédito bancário ou de linhas de crédito oficiais, como as disponibilizadas pelo Plano Safra.
Desmistificando os Fiagros e o papel do mercado de capitais
É comum que o mercado de capitais seja visto como um ambiente repleto de riscos iminentes, especialmente quando se fala na compra e venda de ações na bolsa de valores. Entretanto, a estrutura do Fiagro funciona como um elo entre os produtores rurais que buscam recursos e os investidores que almejam retornos financeiros ao se expor ao agronegócio. Especialistas afirmam que, embora a volatilidade das commodities seja uma realidade, ela deve ser encarada como uma característica normal do setor.
Teixeira destaca que o diferencial dos Fiagros está em assegurar que “os recursos estarão disponíveis na hora certa”. Os riscos, segundo ele, estão mais associados à falta de organização em determinados segmentos, como o de hortifrútis. O alto custo de implantação torna difícil para os produtores acessar esses financiamentos de forma direta. Em contrapartida, as cadeias produtivas de soja, milho, algodão, cana e café se destacam por uma organização mais robusta.
Neste contexto, a atuação de cooperativas e distribuidores se torna crucial. De acordo com Teixeira, é através de uma abordagem indireta que o mercado de capitais consegue oferecer financiamentos a pequenos e médios produtores rurais. “Na prática, o produtor sozinho não consegue. Então, esse é o caminho”, completa.
Um exemplo que exemplifica essa abordagem é o CNA Fiagro, um fundo de microcrédito da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, voltado para pequenos e médios agricultores que recebem assistência técnica e gerencial do Senar. Teixeira ressalta que “esse é o financiamento mais acessível no Brasil”, se comparado às linhas oferecidas pelo governo.
“O Pronaf, assim como outros programas, possui uma carga burocrática significativa. Já com esse modelo de Fiagro, o produtor consegue financiar diversas necessidades; é a chave para o acesso ao crédito”, observa.
No entanto, o cenário para o agronegócio é delicado, enfrentando um aumento nos pedidos de recuperação judicial e um crescimento da inadimplência. Dados do setor mostram que o nível de endividamento no campo atingiu patamares alarmantes. “É uma luta constante, mas seguimos em frente”, conclui Teixeira.


