Entre rivalidades e superações no futebol baiano
Flávio Medeiros iniciou sua carreira profissional no Vitória, clube pelo qual foi revelado, mas foi no Bahia que construiu maior identificação, especialmente ao vestir a camisa 24 em uma ação contra a homofobia no futebol. Atualmente atuando pelo Al-Faisaly FC, na Arábia Saudita, o meio-campista vivenciou diferentes formas de preconceito desde que aceitou o desafio de jogar no Oriente Médio, pouco antes do país se tornar um destino de grandes estrelas do futebol mundial.
Com 30 anos, Flávio reflete sobre sua trajetória em entrevista exclusiva ao ge, abordando o passado, o presente e os planos para o futuro.
Mágoas e aprendizados na trajetória entre Bahia e Vitória
Defensor das cores de Bahia e Vitória, Flávio carrega memórias de gratidão e ressentimento. Revelado na Toca do Leão, ele foi promovido ao time profissional do Vitória, mas acabou perdendo espaço e foi liberado pela diretoria de forma que gerou mágoas.
“Tenho muita gratidão pelo Vitória, mas ficou sim uma mágoa, acho que eles poderiam ter agido de outra forma comigo”, comenta o meio-campista. Após ser apontado como traidor por ter ido para o rival, ele esclarece que a saída não foi uma escolha pessoal. “Um dia, durante um treino, o diretor me comunicou que o clube não contava mais comigo e que eu estava liberado para procurar outras equipes”, lembra.
Flávio destaca que seu primeiro ano foi promissor, com título do Campeonato Baiano e convocação para a seleção brasileira sub-20, além da ascensão do Vitória da Série B para a Série A. No entanto, em 2016, mudanças no elenco pela disputa da Primeira Divisão resultaram na perda de espaço para ele.
Após empréstimos e passagem pelo Santo André, Flávio recebeu convite para defender o Bahia, que inicialmente recebeu com desconfiança devido à rivalidade, mas que se transformou em uma relação positiva durante três temporadas. Em 2020, uma proposta da Turquia promoveu sua saída do futebol baiano.
“Minha trajetória no Bahia foi linda e transformadora. Cheguei em 2018, e em 2019 fui titular absoluto. Ali meu nome foi consolidado”, conta.
O gesto contra a homofobia e a importância da camisa 24
Na passagem pelo Bahia, Flávio ficou marcado por um gesto simbólico contra a homofobia. Participou de uma ação do clube ao adotar o número 24, tradicionalmente evitado por jogadores por estar associado à homossexualidade.
Leia também: Bahia e Vitória: Retrospectiva da Temporada e Novidades para o Retorno no Brasileiro
Leia também: Bahia e Vitória se enfrentam ao vivo no Campeonato Brasileiro Feminino
“No início, alguns jogadores recusaram usar o número 24, mas eu aceitei. Usei na Turquia e no começo da Arábia Saudita também. Hoje uso o oito, mas tenho orgulho de ter usado o 24 e marcado meu nome no Bahia com ele”, afirma.
Apesar das provocações e piadas, especialmente de torcedores rivais e amigos, Flávio afirma que a experiência contribuiu para seu amadurecimento pessoal. “No futebol, infelizmente o meio ainda é machista, mas isso não me abalou”, destaca.
Além das conquistas coletivas, o Bahia permitiu a Flávio a oportunidade de atuar ao lado do irmão gêmeo Fernando Medeiros, hoje no Egnatia, da Albânia.
Novos desafios e adaptação no futebol do Oriente Médio
A experiência internacional de Flávio começou na Turquia, onde defendeu Trabzonspor e Giresunspor por duas temporadas. Em 2022, aceitou o convite para atuar no Al-Taawoun, na Liga Saudita, enfrentando uma cultura de restrições e desafios pessoais.
“Sou da tese que para chegar em qualquer lugar é preciso respeitar a cultura local. No Brasil, minha conduta sempre foi exemplar, e aqui na Arábia não foi diferente”, afirma.
O jogador relembra um episódio que marcou sua adaptação: a sensação de desconforto vivida ao lado da esposa, que ainda não possuía a abaya, vestimenta tradicional usada por mulheres muçulmanas. “Entrar na loja e sentir os olhares desconfiados foi uma experiência difícil, que não desejo para ninguém”, relata.
Mesmo com as dificuldades iniciais, Flávio garante estar totalmente adaptado e satisfeito no país. “Estou no meu quinto ano aqui, feliz e acostumado com a cultura e a religião”, comenta.
O crescimento da Liga Saudita e encontros marcantes
Desde sua chegada, a Arábia Saudita viu a chegada de grandes craques do futebol mundial, como Cristiano Ronaldo, Benzema, Neymar e outros, atraídos pelos investimentos locais. Flávio acompanhou essa transformação de perto.
Leia também: Bahia x Vitória: Confira as Escalações e Onde Assistir à Final do Campeonato Baiano
Leia também: Bahia x Vitória: onde assistir e escalações da final do Campeonato Baiano 2026
“Quando cheguei, ainda não havia grandes nomes. A vinda deles valoriza o campeonato e dá mais visibilidade”, comenta o meio-campista, que também viveu o sonho de enfrentar Cristiano Ronaldo e lembra com carinho o primeiro encontro com o ídolo.
“Sou fã assumido dele desde pequeno. Enfrentá-lo foi um choque e uma sensação boa. Guardo a imagem dele no túnel, prestes a entrar em campo, como uma lembrança que nunca sai da minha cabeça”, conta.
Planos para o futuro: o equilíbrio entre futebol e família
Com 30 anos e 12 temporadas de carreira, Flávio já atuou em oito clubes de três países. Embora não estabeleça limites para o futuro, ele valoriza a família e deseja estar mais próximo dela, especialmente após o nascimento do filho.
“Eu escuto todas as propostas, seja do Japão, China, Arábia, Brasil ou Turquia. Quero jogar enquanto estiver bem, mas sei que a carreira tem um fim”, afirma.
Ele tem contrato por mais um ano na Arábia Saudita e não descarta voltar ao Brasil. “Seria muito feliz em voltar para casa e ver meu filho crescer perto da família”, revela.
Apesar do amor pelo futebol, Flávio descarta seguir na área após a aposentadoria, citando o desgaste e o tempo longe da família, lembrando com pesar que não pôde acompanhar o nascimento do filho.
“O futebol é desgastante, e eu valorizo mais o tempo com minha família. Hoje, não penso em trabalhar com futebol após a carreira”, conclui.
Ficha técnica
Nome: Flávio Medeiros da Silva
Idade: 10/02/1996 (30 anos)
Posição: meio-campista
Clubes: Vitória, Ferroviária, Santo André, Bahia, Trabzonspor (Turquia), Giresunspor (Turquia), Al-Taawoun (Arábia Saudita) e Al-Faisaly (Arábia Saudita)
Títulos: Campeonato Baiano (2016, 2019 e 2020); Supercopa Turca (2020)

