Impacto Significativo no Agronegócio
A escalada do conflito no Oriente Médio já está refletindo em desafios para o agronegócio brasileiro. Com as tensões crescentes entre Estados Unidos, Israel e Irã, o preço do petróleo no mercado internacional disparou, levando a um aumento no valor do diesel no Brasil. A situação é especialmente preocupante para os produtores, pois coincide com o pico da colheita de grãos.
Entidades do setor têm relatado aumentos alarmantes nos preços dos combustíveis. Bruno Lucchi, diretor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, mencionou que alguns produtores detectaram reajustes de até R$ 1 por litro nos postos. Em resposta a essa crise, a confederação solicitou ao governo federal o aumento da mistura obrigatória de biodiesel no diesel, passando de 15% para 17%. Essa medida visa diminuir a dependência do petróleo importado e amenizar os impactos sobre os custos de produção.
Período Crítico para a Agricultura
A preocupação se intensifica, dado que o setor agrícola está atravessando um momento crucial, com a colheita da soja e o plantio da segunda safra de milho em andamento. João Martins, presidente da confederação, ressaltou que os custos de combustível têm uma influência direta nas despesas operacionais e no ritmo das atividades no campo. Atualmente, combustíveis e lubrificantes representam cerca de 5% do custo operacional durante a colheita da soja. Em culturas como a cana-de-açúcar, esse percentual pode alcançar até 20%, aumentando as apreensões em relação a novas altas nos preços.
Possíveis Aumentos nos Fretes
Além do aumento dos custos de produção, especialistas também destacam que a pressão sobre o diesel poderá impactar o transporte de grãos. Fernando Bastiani, pesquisador do grupo de logística da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), advertiu que a evolução do preço do petróleo nas semanas seguintes será crucial. Caso o barril do Brent permaneça próximo de US$ 100, o preço do diesel poderá subir até 20%, resultando em um aumento de cerca de 10% nos fretes agrícolas.
Entretanto, a situação poderá depender das decisões da Petrobras, que desde 2023 começou a não seguir mais a política de paridade internacional de preços de forma automática. A empresa agora considera diversos fatores, como os riscos de desabastecimento e a relação com investidores, ao reajustar os preços dos combustíveis.
Impactos no Transporte Marítimo
O conflito no Oriente Médio também afeta o transporte internacional. O tráfego de petróleo pelo Estreito de Ormuz, que fornece cerca de 20% do abastecimento mundial de petróleo, sofre paradas, resultando em aumentos nos custos de seguro, combustível e frete marítimo. Segundo João Marcelo Dumoncel, empresário do setor de grãos, esses encargos adicionais tendem a ser repassados ao longo da cadeia produtiva, impactando diretamente o produtor rural.
Dados da Esalq indicam que o frete interno, que liga as regiões produtoras aos portos, representa entre 65% e 70% do custo logístico total para a exportação de grãos no Brasil. O transporte marítimo pode representar até 40% desse custo, dependendo da rota utilizada, o que torna o cenário ainda mais desafiador.
Gargalos Logísticos Preexistentes
Vale lembrar que, mesmo antes da intensificação das tensões no Oriente Médio, o escoamento da safra já enfrentava dificuldades logísticas. Caminhões carregados de soja chegaram a enfrentar filas de mais de 25 quilômetros para descarregar no terminal portuário de Miritituba, conforme relatado pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais. Esse cenário evidencia a fragilidade da infraestrutura logística, que pode ser ainda mais comprometida com a crise atual.


