O Crescimento do Movimento Slow na Saúde
A expressão “slow living” teve seu início na Itália, em 1986, quando um grupo de ativistas se opôs à abertura de um McDonald’s na icônica Piazza di Spagna, em Roma. Essa resistência simbolizava a luta contra a pressa da cultura de fast food, que se contrapunha ao modo tradicional italiano de valorizar a comida e as experiências ao redor da mesa. O sucesso desse protesto deu origem ao conceito de “slow food”, defendendo uma alimentação mais consciente e cuidadosa.
Foi nesse contexto que o cardiologista italiano Alberto Dolara identificou um fenômeno semelhante na área da saúde, batizando-o de “fast medicine”. Dolara notou que muitas pessoas chegavam a prontos-socorros enfrentando dores e problemas diversos, apenas para serem atendidas rapidamente, sem tempo para compartilhar suas histórias e preocupações. O foco era na triagem rápida: medindo pressão arterial, checando febre e alérgenos, antes de passar rapidamente para uma consulta que durava em média seis minutos. O resultado? Um arsenal de receitas médicas, muitas vezes recheadas de medicamentos desnecessários.
“Na prática clínica, a pressa é quase sempre desnecessária. A adoção de uma estratégia de Slow Medicine pode ser mais gratificante em muitas situações. Essa abordagem permitiria aos profissionais de saúde, especialmente médicos e enfermeiros, tempo suficiente para avaliar com atenção os problemas pessoais, familiares e sociais dos pacientes”, escreveu Dolara em um artigo publicado no Italian Heart Journal em 2002.
A Versão Brasileira da Slow Medicine
No Brasil, a ideia de resgatar o tempo no atendimento médico ganhou força através de palestras e livros de profissionais italianos e americanos que foram traduzidos e distribuídos no país. Esse movimento inspirou médicos como o geriatra José Carlos Aquino de Campos Velho, o professor de cirurgia Dario Birolini e o clínico geral Kazusei Akiyama a fundar o Slow Medicine Brasil, que também é conhecido, carinhosamente, como Medicina Sem Pressa.
Campos Velho relata: “Assisti palestras, li bastante sobre o assunto e percebi que o Brasil precisava desse movimento. Tanto pacientes quanto médicos precisavam entender sobre essa prática”. Hoje, uma década após sua criação, o movimento conta com cerca de 20 colaboradores que produzem conteúdos, realizam palestras, escrevem livros e são ativos nas redes sociais, onde já somam mais de 14 mil seguidores. A maioria deles é composta por profissionais de saúde, incluindo médicos, enfermeiros e até advogados.
“O que defendemos é uma medicina sóbria, respeitosa e justa. A sobriedade se relaciona ao acesso a tratamentos e medicamentos necessários, sem excessos. A medicina respeitosa refere-se à relação médico-paciente, onde o profissional deve atuar como parceiro, respeitando as escolhas do paciente e oferecendo alternativas no tratamento”, explica André Islabão, médico internista e membro do Movimento Slow Medicine Brasil.
Princípios Fundamentais e Impacto nas Relações de Cuidado
Os princípios da Slow Medicine enfatizam a importância de ouvir e compreender os pacientes, além de evitar decisões apressadas. A autonomia do paciente é central nesta abordagem, já que as decisões devem ser sempre compartilhadas, colocando o paciente no centro do cuidado. “Quando perguntam para quem trabalhamos, costumamos dizer o nome do hospital, mas na verdade, nosso foco é o paciente. Nosso objetivo é beneficiá-lo”, afirma a oncologista Ana Coradazzi, também co-autora do livro “Slow Medicine”.
A utilização consciente da tecnologia na medicina é outro ponto que merece destaque. Islabão menciona que, apesar dos avanços como telemedicina e cirurgias robóticas, é crucial que o toque humano e a conexão física entre médicos e pacientes sejam mantidos. “Quando adoecemos, buscamos um médico de carne e osso. O cuidado deve ir além de uma simples receita ou exame”, ressalta.
Coradazzi observa um crescente interesse pelo tema, que se reflete no aumento de seguidores nas redes sociais, nas solicitações de palestras e na formação de ligas acadêmicas em universidades. “Estamos vendo a ideia se espalhar pelo Brasil e acredito que, na próxima década, essa discussão continuará a crescer, alcançando mais pessoas e promovendo mudanças significativas no sistema de saúde atual”, conclui.
Os 10 Princípios da Slow Medicine
Os princípios fundamentais do movimento são uma bússola para médicos e pacientes que desejam adotar essa abordagem mais cuidadosa e atenta. Assim, o movimento busca transformar a relação entre profissionais de saúde e aqueles que buscam ajuda, promovendo uma medicina que valoriza a paciência e o cuidado acima da velocidade.


