Análise das Condições do Mercado de Trigo
No início de 2026, o mercado brasileiro de trigo apresenta um cenário de lentidão nas negociações. As transações estão ocorrendo de forma pontual, com pouca disposição tanto da demanda quanto da oferta. A combinação de estoques confortáveis na indústria, a defesa de preços por parte dos produtores e a ampla disponibilidade do cereal no mercado internacional mantêm os operadores em um compasso de espera, principalmente nas regiões sulinas do País.
No que diz respeito ao mercado interno, a formação de preços está sendo dificultada pela paridade de importação. Apesar de a safra nacional ser menor em comparação a ciclos anteriores, a dependência do Brasil em relação ao trigo importado continua a definir um teto para as cotações internas. No Paraná, o principal estado produtor, os preços giram em torno de R$ 1,20 mil por tonelada. Já no Rio Grande do Sul, os valores variam entre R$ 1,05 mil e R$ 1,10 mil por tonelada, refletindo a baixa liquidez.
Impacto nas Exportações e Acomodação do Mercado
A perda de competitividade nas exportações também contribui significativamente para o cenário atual. Com preços portuários pouco atrativos, o escoamento do excedente interno está restrito, direcionando uma maior quantidade de grãos para o mercado doméstico, justamente em um momento de menor apetite por parte dos compradores. O resultado é um ambiente de acomodação, onde as negociações estão concentradas em oportunidades pontuais e não há pressão imediata para a recomposição de estoques.
É importante analisar a situação brasileira dentro do contexto global. A produção mundial de trigo para a safra 2024/25 está estimada em aproximadamente 797 milhões de toneladas, com uma oferta abundante concentrada em grandes produtores como China, União Europeia, Índia, Rússia e Estados Unidos. Nesse cenário, o Brasil se posiciona de forma periférica: com uma produção que gira em torno de 7,7 milhões de toneladas, o volume produzido ainda é insuficiente para atender ao consumo interno, mantendo o País entre os maiores importadores do cereal mundial.
Assimetria Estrutural e Dependência de Importações
A assimetria estrutural do mercado de trigo brasileiro explica por que as flutuações nos preços internos são mais influenciadas pelas cotações internacionais do que pela dinâmica local de oferta e demanda. Mesmo em anos de quebra de safra, a abundância global limita os movimentos de alta de preços no Brasil. Neste cenário, a Argentina se destaca como a principal fornecedora externa, embora a recente safra recorde tenha trazido novos desafios relacionados à qualidade. O excesso de chuvas nas regiões produtoras diminuiu o teor de proteína de parte dos lotes, aumentando os prêmios para trigos de melhor qualidade e fazendo com que compradores brasileiros busquem origens alternativas para seus blends.
Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, as importações previstas somam cerca de 2,78 milhões de toneladas — um número levemente inferior ao registrado no mesmo período da safra anterior. Os desembarques estão concentrados em estados como São Paulo, Ceará, Pernambuco e Bahia, onde o parque moageiro é forte e o consumo elevado, reforçando a lógica logística e industrial do setor.
Expectativas para o Futuro do Mercado de Trigo
Com a passagem do tempo, o início de 2026 é caracterizado por um mercado em transição. No primeiro semestre, ainda se sentem os efeitos da safra 2025/26, com baixa volatilidade e escassa urgência de compra. No entanto, o segundo semestre deverá incorporar riscos climáticos, custos de produção e expectativas em relação à safra 2026/27, tanto no Brasil quanto no exterior.
Até lá, a tendência é que o ambiente permaneça defensivo, com compradores agindo de maneira cautelosa, vendedores mantendo seus preços firmes e as cotações ancoradas no mercado internacional. Assim, o cenário atual retrata com precisão a posição do trigo brasileiro na engrenagem global de grãos, revelando desafios, mas também oportunidades para o setor.


