Uma Celebração de Homenagem e Respeito
A missa em memória de Mãe Carmen, uma das figuras mais icônicas do Candomblé na Bahia, ocorreu na Igreja Nossa Senhora da Vitória, organizada pelo Terreiro do Gantois em colaboração com a Associação de São Jorge Ebé Oxóssi. O evento atraiu familiares, filhos e filhas de santo, além de representantes de diversas comunidades de matriz africana, todos prestando suas homenagens à trajetória espiritual e social da ialorixá.
Mãe Carmen, falecida no dia 26 de dezembro, estava internada há duas semanas no Hospital Português, em Salvador, decorrente de uma forte gripe. Sua partida deixou um vazio significativo para a comunidade religiosa e cultural do estado.
História e Legado de Mãe Carmen
Anunciada como a quinta religiosa à frente do Terreiro do Gantois, Mãe Carmen foi iniciada no candomblé aos sete anos e liderou a casa desde 2002. Sua ascensão à liderança foi precedida por uma rica linha sucessória que inclui nomes como Maria Júlia da Conceição Nazareth (1849-1910), Pulchéria Maria da Conceição Nazareth (1910-1918), entre outros.
Uma das homenagens mais emocionantes prestadas a Mãe Carmen foi a música “A Força do Gantois”, composta pelo sambista Nelson Rufino e lançada em agosto de 2011. A canção retrata a força e a resistência do terreiro e da cultura afro-brasileira.
Espiritualidade e Contribuições Culturais
Nascida em 1926, Carmen Oliveira da Silva era a filha mais nova de Maria Escolástica de Conceição Nazaré, a icônica Mãe Menininha, que também foi ialorixá do Terreiro do Gantois, um dos mais tradicionais e respeitados centros de espiritualidade afro-brasileira na Bahia. Ao longo de 23 anos à frente do terreiro, Mãe Carmen tornou-se guardiã de um dos pilares fundamentais da espiritualidade, cultura e ancestralidade negra no Brasil e além.
Em maio de 2023, Mãe Carmen foi agraciada com a comenda Maria Quitéria, uma honraria destinada a mulheres que se destacam em realizações em prol de Salvador e da Bahia. Essa condecoração é um reconhecimento de sua importância não só religiosa, mas também social.
Com iniciativas que promoviam ações sócio-educativas para a comunidade do Gantois, Mãe Carmen dedicou sua vida a garantir que as tradições e saberes afro-brasileiros fossem preservados e acessíveis. Dentre suas ações, destacam-se os cursos de ritmos, danças, bordados tradicionais e outras referências culturais que valorizavam a memória da religiosidade de matriz africana na Bahia.
Adicionalmente, seu trabalho de preservação das tradições e do diálogo inter-religioso foi reconhecido com a “Medalha dos 5 continentes ou da diversidade cultural”, uma comenda entregue pela Unesco em maio de 2010. Esse prêmio reflete o compromisso de Mãe Carmen em promover a diversidade cultural e a harmonia entre diferentes crenças religiosas.
Um Legado que Continua Vivo
A celebração da missa de sétimo dia em homenagem a Mãe Carmen não foi apenas um evento religioso, mas sim uma manifestação de amor, respeito e gratidão à sua vida e seu legado. A presença maciça de membros da comunidade, admiradores e familiares durante a cerimônia é um testemunho do impacto que essa ialorixá teve na vida de muitos e na cultura afro-brasileira como um todo. Embora sua presença física tenha partido, sua espiritualidade e os ensinamentos que deixou continuam a ressoar nas práticas e na memória coletiva de todos que a conheceram.


