Desafios e Estratégias da Casas Bahia
O ano de Copa do Mundo tradicionalmente representa uma excelente oportunidade para a venda de televisores, e a Casas Bahia aposta nesse cenário para impulsionar seus negócios. Além disso, a circulação de dinheiro em ano eleitoral também favorece as vendas. Entretanto, a varejista enfrenta desafios, como o aumento dos custos de frete resultante da alta do petróleo devido à instabilidade no Irã e uma concessão de crédito mais cautelosa, tendo em vista o aumento da inadimplência. Em entrevista, o CEO Renato Franklin, de 45 anos, revelou que a empresa não está disposta a acelerar suas operações em 2026.
A situação financeira da Casas Bahia é complexa. Após entrar em recuperação extrajudicial em abril de 2024, a empresa, que acumulava dívidas de R$ 4,1 bilhões, conseguiu reestruturar suas finanças e reduziu seu passivo para R$ 1,13 bilhão em apenas três meses. Apesar dessa recuperação, o prejuízo quase triplicou em relação ao ano anterior, atingindo R$ 2,98 bilhões, impulsionado por um efeito não recorrente.
“O pior momento da Casas Bahia já passou”, afirma Franklin. Ele destaca que a empresa possui uma das menores alavancagens do setor, com uma relação de dívida líquida e Ebitda em 0,4 vez, muito abaixo da média do setor, que varia entre 2 e 3,5 vezes. O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, apresenta uma alavancagem de 2,4 vezes.
Impactos do Prejuízo e Medidas de Prevenção
Apesar da aparente recuperação, o resultado financeiro da Casas Bahia foi impactado por uma baixa não recorrente de ativos fiscais diferidos, totalizando R$ 1,45 bilhão. Isso sinaliza um risco futuro relacionado a possíveis perdas em ações judiciais. Caso esse efeito não estivesse presente, o prejuízo teria crescido 47%, alcançando R$ 1,5 bilhão.
Para mitigar riscos, Franklin revela ter realizado simulações de estresse financeiro, levando em conta variáveis como juros, inflação e a guerra no Irã. “Prefiro ser conservador e evitar surpresas no balanço, a não ser que sejam positivas”, disse o CEO.
Resultados Financeiros e Mudanças no Modelo de Vendas
No encerramento de 2025, a Casas Bahia apresentou um faturamento de R$ 34,8 bilhões, com um aumento de 7,4% em relação ao ano anterior. A receita líquida foi de R$ 29,2 bilhões, também com crescimento de 7,3%, enquanto o Ebitda ajustado cresceu 29,7%, totalizando R$ 2,5 bilhões. Contudo, o resultado financeiro foi negativo em R$ 3,7 bilhões, um aumento de 68% em comparação ao ano anterior, reflexo da alta dos juros.
Antigamente conhecido pelo bordão “quer pagar quanto?”, a Casas Bahia mudou seu foco estratégico para um modelo mais conservador, priorizando a estabilidade da inadimplência abaixo do patamar de 9%. Franklin alerta para o perigo de se deixar levar pela redução do desemprego e aumento da renda, enfatizando a necessidade de cautela, uma vez que o nível de inadimplência no cheque especial saltou de 12% no início de 2024 para 17% no final do ano passado.
Crescimento Digital e Desafios da Logística
As vendas via crediário representam 17% do total, sendo que a maior parte vem do cartão de crédito (65%), enquanto as compras via Pix, que representam 23%, estão crescendo à medida que os consumidores buscam pagamentos à vista para conseguir descontos. A adesão ao comércio eletrônico também tem avançado, especialmente após a parceria com o Mercado Livre, que resultou em 45,5% das vendas totais no último trimestre.
Apesar desse crescimento, o grupo enfrentou desafios logísticos no final do ano, especialmente durante a Black Friday e o Natal, o que resultou em atrasos nos pagamentos a alguns vendedores. Franklin minimiza as reclamações, afirmando que os problemas foram pontuais e já resolvidos. No entanto, entre 2024 e 2025, as queixas na plataforma Reclame Aqui aumentaram 35%, totalizando 117,6 mil.
Movimentos Estratégicos e Futuro da Companhia
A recente emissão de uma nota comercial de R$ 1,4 bilhão junto ao Bradesco visa substituir passivos de risco de curto prazo, permitindo um alongamento dos vencimentos sem aumentar o endividamento da companhia. A nova direção da empresa, sob a liderança do Mapa Capital, busca estabilidade financeira ao reformular a estrutura de dívidas, resultando em uma economia anual de cerca de R$ 230 milhões em despesas financeiras.
A reestruturação da Casas Bahia, embora tenha causado diluição dos acionistas, incluindo a família Klein, é vista como um movimento necessário para garantir o capital de giro e sustentar as operações. No entanto, o consultor Eugênio Foganholo destaca que a empresa ainda precisa provar sua capacidade de gerar lucros e retornar à performance de anos anteriores, desafiando os novos paradigmas do setor.


