Análise das Implicações da Captura de Maduro para a Política Internacional
A prisão de Nicolás Maduro pelas forças norte-americanas, ocorrida em 3 de janeiro de 2026, desencadeou uma crise internacional de grandes proporções e reacendeu o debate sobre os limites da intervenção militar, o enfraquecimento do multilateralismo e o papel do Brasil como líder na América Latina. Segundo Gabriel Petrus, professor e especialista em relações internacionais, essa situação poderia ter sido evitada caso o Brasil e outros países tivessem agido com mais firmeza, exigindo eleições livres e uma transição democrática na Venezuela antes do agravamento da crise.
Precedente Militar e Mudanças na Ordem Internacional
De acordo com Petrus, a captura de Maduro em Caracas estabelece um precedente de difícil reversão. Essa operação, destaca ele, ultrapassa um marco histórico, ao normalizar intervenções militares diretas em situações que, há duas ou três décadas, provocariam uma ampla rejeição internacional.
A avaliação do professor indica que a ação militar dos Estados Unidos reflete uma transformação significativa no cenário global, marcada por uma crescente aceitação das decisões unilaterais e pela diminuição dos consensos multilaterais. A normalização de ações antes vistas como inaceitáveis demonstra uma disposição crescente para explorar brechas na fragmentação da ordem internacional.
A Fragmentação Global e a Estratégia dos EUA
Petrus relaciona a decisão do presidente Donald Trump a um cenário internacional fragmentado, que afeta até mesmo organizações tradicionais. Ele observa que a erosão da coesão em blocos como a União Europeia e a OTAN cria um ambiente onde o uso da força tem um peso desproporcional nas relações internacionais.
Nessa perspectiva, a intervenção na Venezuela deve ser entendida como parte de uma estratégia geopolítica mais ampla. Essa lógica de poder, segundo o especialista, tende a prevalecer sobre a diplomacia em um mundo menos regulado por normas comuns, impactando diretamente países periféricos ou politicamente isolados.
Dimensão Energética e Disputa por Recursos
A análise de Petrus também destaca a importância da dimensão energética na situação venezuelana. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo, que permanecem em grande parte não exploradas devido à nacionalização do setor ao longo das últimas quatro décadas e à crise econômica do país.
Uma eventual mudança de regime poderia reverter essa situação, permitindo a exploração do petróleo por empresas estrangeiras. A Venezuela, que foi um dos membros fundadores da Opep, construiu uma política soberana que agora enfrenta novos desafios.
No entanto, Petrus ressalta que não está claro se essa reabertura do mercado resultaria em uma concorrência efetiva ou em uma concentração de poder econômico sob a liderança dos Estados Unidos. Essa incerteza se relaciona diretamente à nova política externa de Trump, que privilegia explicitamente os interesses estratégicos norte-americanos, incluindo o controle de recursos naturais essenciais à segurança nacional.
Questionamentos Internos nos EUA
No Congresso americano, tanto democratas quanto republicanos estão exigindo esclarecimentos sobre a legalidade da operação, incluindo os custos financeiros e os objetivos estratégicos de longo prazo para a Venezuela. As discussões envolvem desde a legalidade da captura de um chefe de Estado até os riscos de instabilidade prolongada em um país crucial para o mercado energético global.
O futuro, ou o “dia seguinte” à operação, continua indefinido, alimentando tensões políticas tanto internas quanto externas.
O Multilateralismo sob Pressão
Para Gabriel Petrus, o momento atual é crítico para a ordem internacional. A soma de crises e intervenções unilaterais ameaça o multilateralismo, mas, segundo ele, não elimina a relevância das organizações internacionais. Instituições como a ONU e a OEA continuam sendo essenciais na gestão de transições políticas e na reconstrução institucional.
Ele menciona a crise do Haiti em 2004 para exemplificar como a atuação da ONU, com apoio de países como Brasil, França e Canadá, levou à criação da Minustah e à organização de novas eleições. Petrus acredita que, no caso da Venezuela, essas organizações poderiam desempenhar um papel semelhante, desde que haja vontade política das grandes potências e uma coordenação regional efetiva.
O Papel do Brasil na Diplomacia Regional
O especialista argumenta que o Brasil possui condições políticas, diplomáticas e econômicas para exercer uma influência significativa no cenário atual. O país, que compartilha uma extensa fronteira com a Venezuela e já foi um investidor importante na nação vizinha, tem um papel fundamental em fóruns internacionais.
Petrus defende que Brasília deve buscar articulações regionais, especialmente com a Colômbia, e formar uma coalizão ampliada com parceiros europeus. Apesar das divisões internas na União Europeia, ainda existe a possibilidade de iniciativas diplomáticas conjuntas.
Riscos de Interferência Política no Brasil
Com a ultrapassagem da linha da intervenção militar, o especialista alerta para o aumento do risco de interferência política externa, que pode ocorrer por meios indiretos, como o financiamento de partidos e campanhas influentes. Esse cenário levanta preocupações sobre a estabilidade institucional e sobre os processos eleitorais na região.
No Brasil, já em ano eleitoral, a questão venezuelana pode ser utilizada como uma ferramenta política. Por um lado, reafirma-se a defesa do multilateralismo e da não intervenção, enquanto por outro, a falta de uma liderança efetiva por parte do Brasil na promoção de uma transição democrática na Venezuela é colocada em evidência, especialmente considerando as eleições de 2024, que são vistas como fraudulentas por muitos na comunidade internacional.
Intervenção, Energia e Omissão Diplomática
A prisão de Nicolás Maduro revela um ambiente internacional cada vez mais propenso a ações unilaterais e ao uso da força. O episódio expõe não apenas a fragilidade do multilateralismo, mas também o custo acumulado de anos de ambiguidade diplomática em relação ao regime venezuelano.
A dimensão energética sublinha que a operação ultrapassa o discurso da democracia, inserindo-se em uma disputa estratégica por recursos naturais. A falta de um plano claro para o “dia seguinte” aumenta os riscos de uma instabilidade prolongada e de uma concentração de poder econômico na região.
Para o Brasil, a crise serve como um alerta: a hesitação em liderar iniciativas regionais cobra um preço elevado, diminuindo a capacidade de influência e deixando o país diante de uma nova realidade em seu entorno estratégico.


