A Indignação que Precisa Ser Ouvida
Nas últimas semanas, o universo do futebol foi novamente marcado por episódios tristes que expõem o preconceito enraizado no esporte. Vini Jr. enfrenta, mais uma vez, atos de injúria racial, enquanto Gustavo Marques, zagueiro do Red Bull Bragantino, fez declarações lamentáveis ao tentar justificar o desempenho de uma árbitra, simplesmente porque ela é mulher.
Além disso, torcedores da Portuguesa proferiram insultos a Hugo Souza, goleiro do Corinthians, e um torcedor chileno foi preso por racismo durante o jogo entre Bahia e O’Higgins, que ocorreu na Casa de Apostas Arena Fonte Nova. Esses incidentes reforçam a necessidade urgente de se discutir o racismo e o machismo no futebol.
Um Desabafo Necessário
Permita-me ser direto: este texto vai além de reflexões sobre marketing esportivo; é um desabafo. O que se observa no futebol é um reflexo da sociedade, onde preconceito, ignorância e falta de educação são problemas estruturais que persistem. A frase “o futebol é apenas um recorte da sociedade” nunca fez tanto sentido.
Os ataques racistas que Vini Jr. sofreu não são casos isolados, mas sim repetidos de maneira preocupante, afetando não apenas a pele, mas também a alma e a dignidade do atleta. Desde os tempos de formação, quando ele ainda era apenas um menino sonhando com a carreira, essa luta já se iniciava. Agora, com voz, ele se levanta contra essa injustiça.
A Reação do Ecossistema do Futebol
Recentemente, algumas figuras de destaque começaram a agir de forma mais incisiva nesse cenário. Personalidades como Thierry Henry, Luisão, Lilian Thuram, Vincent Kompany e Rio Ferdinand manifestaram publicamente seu apoio a Vini, exigindo responsabilização e ação contra o racismo. Embora isso seja um avanço significativo, ainda é insuficiente.
Jogadores como Kylian Mbappé também se posicionaram, concordando com Vini e pedindo a desqualificação de Gianluca Prestianni da Champions League. Esse tipo de postura é essencial para promover mudanças na cultura esportiva.
A Falta de Solidariedade é Alarmante
Entretanto, é crucial ressaltar que a luta contra o racismo não deve ser uma responsabilidade exclusivamente das vítimas. O silêncio de atletas e treinadores brancos é ensurdecedor e indica uma conivência com o problema. O racismo é uma questão que deve unir todos os envolvidos no esporte, e os que não falam, de certo modo, também estão perpetuando a injustiça.
O racismo é inaceitável e, no Brasil, é crime. Contudo, em muitos lugares do mundo, essa realidade ainda não foi reconhecida. O futebol precisa estabelecer punições severas e exemplares para que atitudes discriminatórias sejam adequadamente abordadas. É fundamental que essa legislação seja cumprida de forma rigorosa, sem desculpas ou conivências.
Refletindo Sobre as Atitudes de Todos
A entrevista de Gustavo Marques, que desqualificou o desempenho da árbitra Daiane Muniz por ela ser mulher, adiciona uma camada preocupante ao debate sobre desigualdade de gênero no esporte. Essa visão ultrapassada ainda é comum e deve ser confrontada. O erro no desempenho de um árbitro deve ser discutido com foco em habilidade e preparação, não em gênero.
Em 2026, um pensamento como esse é simplesmente inaceitável. A presença de árbitras femininas em competições masculinas é uma realidade consolidada, e profissionais como Ana Paula Oliveira, Fernanda Colombo e Edina Alves têm demonstrado competência e profissionalismo em suas funções. Questionar a capacidade de alguém baseado em gênero é, sem dúvida, preconceito.
Uma Necessidade de Transformação Profunda
É claro que ainda há muito a ser feito. Clubs, federações e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) devem manter vigilância constante e não se contentar com ações pontuais. O futebol precisa ir além das notas de repúdio e compromissos vazios. A formação de novos atletas deve incluir programas estruturados que abordem educação racial, de gênero e cidadania, como parte integral do desenvolvimento profissional.
Esse é o caminho não apenas para formar melhores jogadores, mas para cultivar cidadãos mais conscientes e responsáveis. O futebol deve deixar claro que não há espaço para racistas ou misóginos em seu ambiente, ou continuará a ser cúmplice de um problema que já ultrapassou todos os limites.
Neutralidade nesse contexto não é prudência; é conivência. Ouvindo o clamor da sociedade, o futebol tem a oportunidade de ser um agente de mudança, promovendo um ambiente mais inclusivo e respeitoso.


