A Evolução do Sertanejo Universitário no Contexto Econômico
O início do século XXI no Brasil trouxe à tona um fenômeno que alterou a dinâmica econômica do país: a reprimarização da economia. Esse movimento evidenciou a importância dos produtos primários, especialmente as commodities agrícolas, que passaram a comandar as exportações e a movimentar bens e serviços em todo o território nacional. Nesse cenário, o sertanejo universitário ganhou força, impulsionado por um crescimento que começou nas décadas de 1980 e 1990, quando duplas icônicas como Chitãozinho e Xororó e Zezé de Camargo e Luciano começaram a popularizar a figura do cowboy brasileiro em um país em desenvolvimento agrícola.
O recém-lançado livro “Sertanejo Universitário, Agronegócio e Indústria Cultural”, escrito por Caíque Carvalho e publicado pela Editora Telha, examina como essa relação simbiótica se estabeleceu. Carvalho, que possui mestrado e doutorado em sociologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), é um especialista que investiga a intersecção entre cultura e economia, trazendo um olhar profundo sobre o tema.
O Agronegócio e a Formação de Mão de Obra no Sertanejo
Com a expansão das cidades médias, especialmente no Centro-Oeste, o agronegócio começou a exigir mão de obra qualificada. Este crescimento também incentivou a criação de instituições de ensino superior nos centros urbanos do interior. O autor discute como esse cenário fez com que o sertanejo se renovasse, conquistando um novo público universitário que buscava não apenas entretenimento, mas também uma identidade cultural ligada ao agronegócio.
Em seu livro, Carvalho destaca que a primeira década dos anos 2000 foi um período crucial para o sertanejo, que ao se afastar da temática das relações amorosas, passou a explorar temas de desapego e celebração. Essa mudança refletiu um tempo de transformação social, com o gênero se firmando como parte do ambiente universitário. Além disso, o autor analisa como as políticas públicas dos primeiros mandatos do ex-presidente Lula foram fundamentais para promover a inclusão das classes média e baixa no ensino superior.
Os Artistas e Suas Conexões com o Agronegócio
Carvalho ressalta que muitos dos artistas que se destacaram na primeira fase do sertanejo universitário eram universitários. Exemplos como João Bosco e Vinicius, considerados pioneiros do subgênero, mostram essa conexão. Além disso, alguns artistas, como Mateus (da dupla com Jorge) e Sorocaba (da dupla com Fernando), optaram por cursos relacionados ao agronegócio, como Agronomia, evidenciando a intersecção entre suas carreiras e o setor agrícola.
Um marco significativo na história do sertanejo universitário, conforme aponta o autor, foi a canção “Ai Se Eu Te Pego”, lançada em 2008 e interpretada por Michel Teló. Carvalho explora as nuances da formação desse estilo musical, incluindo uma análise aprofundada das letras que caracterizam a estética do subgênero.
O Sertanejo Universitário e as Feiras Agropecuárias
A presença do sertanejo universitário em feiras agropecuárias pelo Brasil é outra faceta notável discutida por Carvalho. Embora a participação de artistas sertanejos em eventos agropecuários seja uma prática que remonta a décadas, o domínio do sertanejo nesse contexto reforça a modernidade e a vitalidade do agronegócio, ao mesmo tempo que valoriza suas raízes tradicionais. Essa relação simbólica entre a indústria cultural e o setor econômico é essencial para entender a posição do sertanejo universitário na sociedade contemporânea.
O livro “Sertanejo Universitário, Agronegócio e Indústria Cultural” proporciona um panorama rico para entender como o sertanejo e o agronegócio se aproximaram ideologicamente neste século. A obra de Caíque Carvalho é uma leitura indispensável para quem deseja compreender as complexas interações entre música, cultura e economia no Brasil atual.


