Revisitando a História e o Futuro de Salvador
Em 1944, o escritor Jorge Amado afirmava que a força do povo de Salvador supera a miséria. Essa resiliência se manifesta nas festas, nas canções e na determinação de um povo que nunca se entrega. A versão definitiva da obra “Baía de Todos-os-Santos”, lançada em 1986, completa quatro décadas e nos provoca a reavaliar a realidade da cidade, que permanece repleta de belezas e feridas ainda abertas.
O sociólogo Gey Espinheira, em um escrito que comemorava os 450 anos da capital baiana, destacava que Salvador é um lugar onde a expectativa de mudança está sempre no ar. Essa ideia é fundamental, pois nos leva a questionar: qual é a Salvador que queremos em 2049?
Desafios e Oportunidades para o Futuro
O historiador João José Reis lembra que durante o período colonial, Salvador era um microcosmos de lutas e resistências, refletindo a vitalidade de uma sociedade civil atuante e conectada com as transformações nacionais. No entanto, hoje, o debate sobre o futuro da cidade parece estar preso ao imediatismo impulsionado pela especulação imobiliária e a um planejamento urbano excessivamente focado na orla marítima.
Os números da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 revelam um empobrecimento preocupante. A Prefeitura alocou R$ 81,9 milhões para um projeto de Arena Multiuso, que será entregue à iniciativa privada, quase o dobro dos R$ 45,4 milhões destinados à construção e reforma de creches municipais. Essa disparidade é alarmante e deve nos levar a refletir sobre as prioridades da administração pública.
Investimentos e Prioridades em Debate
A Secretaria de Governo (SEGOV), que se dedica à articulação com lideranças políticas, consome R$ 108,7 milhões, um valor semelhante ao que foi destinado a melhorias nas habitações populares, que somam R$ 116,4 milhões. Além disso, a Defesa Civil, responsável por monitorar encostas em áreas vulneráveis, opera com apenas R$ 23,9 milhões, uma quantia irrisória se comparada aos R$ 52,5 milhões destinados a patrocinar eventos náuticos.
Esses números evidenciam que a gestão da cidade parece ser voltada para atender os interesses de quem chega, em vez de cuidar de quem já reside aqui. Por que as políticas públicas estão tão subordinadas a um turismo voltado apenas para o lazer nas praias? Salvador não pode continuar a ser tratada como um resort, onde as prioridades orçamentárias divergem da realidade de seus moradores.
A Construção de um Novo Pacto Social
As prioridades financeiras devem refletir as necessidades reais da população que habita as zonas mais vulneráveis da cidade, incluindo as encostas e os bairros populares. É fundamental que haja um monitoramento eficaz da governança em cada bairro, com ações práticas voltadas para atender às especificidades de cada região.
Assim, proponho que em 2027 possamos estabelecer um novo pacto público de bem-estar social, envolvendo governos, universidades e a sociedade civil. Esse pacto deve nos conduzir, com responsabilidade e planejamento, rumo a 2049, quando Salvador completará 500 anos. A questão que fica é: como queremos viver nessa Salvador em 2049?


