Música e Dinâmicas: Ferramentas de Cura Emocional
Wellington Barreto dos Santos, 25 anos, levou para uma sessão de terapia em grupo na UBS Jardim Colombo, na zona oeste de São Paulo, a canção “Girassol”, de Priscilla Alcântara e Whindersson Nunes. Para ele, a música representa um desejo de reencontro e felicidade. Este exercício faz parte das atividades conduzidas pela psicóloga Pamella Becegati, 31, que coordena o grupo voltado para pessoas em luto. A experiência de participar de uma sessão, acompanhada por nossa equipe em dezembro, mostrou como a música pode ser uma forma de expressar sentimentos em momentos de dor.
Wellington, que se juntou ao grupo há quatro meses, enfrentou a perda de duas tias e um amigo em um período que o deixou com uma ansiedade intensa. “Uma das tias eu perdi há cinco anos. Nossa relação era muito próxima, sonhávamos com viagens. A outra tia eu encontrei morta em casa. Foi como arrancar um pedaço do meu coração. E meu amigo, cheio de vida, faleceu em um acidente”, relembra ele.
“Sofri em silêncio. Não contei nem para os meus pais, só me isolava no quarto. Aqui no grupo, encontrei apoio e passei a ver a vida com outros olhos. Agora, consigo relembrar os momentos com eles sem ser tomado pela ansiedade”, compartilha Wellington.
A psicóloga Pamella explica que a música serve como um meio de reflexão: “Qual foi a primeira lembrança que essa canção trouxe? Que experiências ela evocou?” O luto é um processo complexo que provoca reações emocionais, físicas e sociais após a perda de alguém importante. Muitas vezes, a tristeza intensa impede o indivíduo de retomar suas atividades cotidianas, levando ao isolamento social. Em 2022, o Ministério da Saúde classificou o luto prolongado como um transtorno mental.
Conforme a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, aqueles que enfrentam o luto e necessitam de apoio psicológico podem buscar atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). As sessões podem ser individuais ou em grupos, dependendo da gravidade da situação.
Grupo de Apoio: Uma Nova Família
Nos atendimentos, os participantes contam com uma equipe multiprofissional, geralmente acompanhada por assistentes sociais que facilitam os encaminhamentos necessários. Massumi Hirota Tunkus, 65 anos, compartilha sua experiência dolorosa após a morte do marido há 18 anos. Ela nunca teve a oportunidade de viver seu luto plenamente, devido às responsabilidades com seus filhos adolescentes e sua mãe, que sofreu um AVC. “Foi um impacto muito grande, ele era cinco anos mais jovem e esportista. Estava parada em uma situação mal resolvida até chegar ao grupo três meses atrás. Aqui, encontrei uma nova família onde ninguém me julga. Estamos todos juntos nessa”, revela Massumi.
Solange Maria de Assunção Modesto, 61 anos, também compartilha sua dor pela perda da irmã, falecida após um transplante de medula óssea em agosto. “Ainda estou desolada, ela era tudo para mim. As trocas de experiências no grupo me ajudam a seguir em frente”, comenta.
Dentre as dinâmicas utilizadas, os participantes seguram pinhas de eucalipto. Pamella utiliza este objeto para incentivá-los a refletir: “A missão é olhar para dentro e perceber como estão emocionalmente. O que gostariam de mudar? Como podem equilibrar o sofrimento? A pinha, assim como a dor, pode machucar, e a forma como lidamos com isso é essencial para a recuperação.”
Maria Neuza Ferreira da Silva, 71 anos, enfrentou uma depressão após a morte do marido devido a leucemia. Sua filha, Leirilene Ferreira da Silva, 50 anos, fala sobre a gravidade da situação: “A morte do meu padrasto levou minha mãe a um estado de medo extremo, onde mal conseguíamos sair de casa. Contudo, após três meses de terapia, ela começou a melhorar, já consegue sair sozinha e se reerguer. Agradecemos muito à doutora Pamella por isso.”
Os encontros, que reúnem cerca de dez participantes, ocorrem todas as segundas-feiras, às 16h, e têm duração de 50 minutos. Durante as sessões, Pamella utiliza dinâmicas diversificadas, como músicas, cartas e até o plantio de feijões, para apoiar os enlutados na elaboração de seu luto.
A psicóloga também recomenda o uso de diários como forma de expressão emocional, onde os participantes podem escrever mensagens para quem partiu, refletindo sobre o que não puderam dizer. “Esses exercícios são fundamentais para processar a dor e fortalecer os vínculos emocionais”, finaliza Pamella.


