Um Ano Eleitoral Marcado pela Violência
O Brasil se prepara para um novo ciclo eleitoral, que promete intensificar a situação de violência política contra as mulheres. Nos últimos anos, testemunhamos um aumento alarmante nos casos de assédio machista, racista e misógino, que afetam, principalmente, mulheres parlamentares. As agressões vão desde a exclusão e cerceamento do acesso a espaços políticos até ataques verbais e digitais, que se manifestam em ofensas e ameaças, incluindo até mesmo ameaças de morte e estupro. O impacto dessas violências não se limita às vítimas diretas, mas também atinge suas famílias, com agressores utilizando métodos intimidadoramente semelhantes aos da ditadura. O objetivo, em última análise, é silenciar, desestabilizar e afastar mulheres da política.
Esse fenômeno não se restringe apenas às que ocupam cargos nos parlamentos, mas também se estende a lideranças partidárias e aquelas que ousam entrar nas disputas eleitorais. Mulheres ativistas dos movimentos sociais e de defesa dos direitos humanos também são alvo dessa violência. Mesmo em ambientes onde a luta pelo poder é mais eficaz, a presença feminina continua a ser um desafio, com as mulheres enfrentando diferentes graus de violência, que variam de sutis a explícitas, em qualquer organização, seja governamental ou não. É um reflexo de uma estrutura de poder historicamente dominada por homens.
A Influência do Patriarcado na Violência Política
A violência política de gênero, apesar de ainda ser um conceito sem consenso na academia, tem crescido tanto em número quanto em gravidade. Essa situação está inserida em um contexto histórico que desvaloriza e marginaliza as mulheres, sendo que essa opressão não é irrestrita. Mulheres pobres, negras, indígenas e ciganas são as mais atingidas, demonstrando a intersecção entre classe, gênero e raça. Como mencionado por Olívia Santana em seu livro “Mulher Preta na Política”, os homens brancos e ricos continuam a dominar a representação política, mesmo em um cenário pós-Constituição de 1988, que deveria ter promovido a democratização.
O aumento da violência política contra as mulheres é impulsionado por uma ascensão dos setores conservadores e antidemocráticos nos parlamentos. A silenciação das mulheres é, portanto, uma tentativa de calar a Democracia. Além dos mecanismos formais da política, existe um profundo enraizamento de comportamentos machistas na sociedade, respaldados pelo patriarcado. Segundo a socióloga Heleieth Saffioti, o patriarcado está em constante transformação e ainda permeia a estrutura social, estendendo sua influência ao Estado. A violência política é uma forma de perpetuar o controle de grupos hegemônicos no sistema político, mantendo homens brancos, heterossexuais e de classe média como os principais representantes.
Legislação e Mudança na Representação
De acordo com o Mapa Mulheres na Política de 2025, elaborado pela ONU Mulheres e pela União Interparlamentar, o Brasil ocupa a 133ª posição no ranking global de representação feminina nos parlamentos, um número muito aquém da média continental. Contudo, algumas mudanças legislativas desde 2009, especialmente na distribuição de recursos para campanhas eleitorais, têm gerado resultados positivos. Desde 2018, o Tribunal Superior Eleitoral assegurou que, no mínimo, 30% do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do Fundo Partidário fossem destinados a mulheres. Essas ações já resultaram em um aumento significativo na presença feminina nas eleições, com um crescimento de 52,6% no número de mulheres eleitas em 2018 em comparação a 2014, e mais avanços em 2022, elevando a representação feminina na Câmara dos Deputados para 18% e no Senado para 19,75%.
Essa transformação acontece em um momento em que a sociedade brasileira começa a reconhecer a importância da presença feminina na política. As mulheres não se conformam mais com o estereótipo de “belas, recatadas e do lar”, imposto por setores conservadores que desejam mantê-las no espaço privado. Elas são responsáveis por mais da metade dos lares brasileiros, exercem diversas profissões e se destacam como líderes em suas comunidades, lutando por seus direitos e por uma sociedade mais justa. No entanto, essa luta não é isenta de riscos. Casos como os assassinatos de Marielle Franco e Mãe Bernadete Pacífico evidenciam a luta e o sacrifício que muitas mulheres enfrentam para ocupar espaços de poder.
Resistência e Avanços na Política
A violência política, embora severa, não é uma luta isolada. As mulheres que se insurgem e decidem lutar por seus direitos enfrentam riscos ainda maiores, refletindo episódios históricos de perseguição. A participação feminina na política é vital não apenas para as mulheres, mas para a sociedade como um todo e para a democracia. É fundamental que a diversidade feminina seja ouvida na construção de políticas públicas e na direção do país.
À medida que este ano eleitoral se aproxima, é crucial apoiar e eleger mulheres comprometidas com o avanço social e político. A jornada será desafiadora, mas as mulheres continuarão na linha de frente, defendendo um Brasil mais justo, democrático e soberano. O valor da coragem feminina será novamente testado, pois, conforme observa Sílvia Federici, a luta pela igualdade e contra a opressão nunca termina.


