A Influência do Diabo na Disputa Política
Desde tempos imemoriais, a figura do mal, representada por termos como ‘diabo’ e ‘satanás’, impacta profundamente o imaginário coletivo. A primeira alusão à personificação do mal na Bíblia cristã remete à serpente no Gênesis, e ao longo da narrativa bíblica, o ‘adversário’ aparece, mas sem um nome claro, conforme indica o livro de Jó. Para o psicólogo Eduardo Afonso, essa figura carrega consigo milênios de medo e simbolismo. “O diabo, na prática, opera em níveis que vão além da razão. O medo sempre precede a lógica”, explica Afonso, ressaltando que não é preciso acreditar na sua existência para que suas consequências sejam reais.
No contexto contemporâneo, essa evocação do mal é utilizada de maneira estratégica no cenário político. Em um evento em junho de 2025, por exemplo, o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) provocou reações acaloradas ao afirmar que os apoiadores de Bolsonaro superavam os de Lula, que ele se referiu pejorativamente como ‘satanás’. Essa retórica, segundo analistas, não é recente, mas uma repetição de um ritual político onde adversários são simplificados a meras personificações do mal.
A figura do diabo, portanto, se torna um símbolo eficaz na luta pelo poder, onde a demonização do opositor serve para deshumanizar e simplificar a disputa. Como aponta Afonso, “chamar alguém de corrupto provoca indignação, mas rotulá-lo de diabólico gera pânico”. Esse tipo de discurso, que apela ao medo, tem a habilidade de mobilizar apoio rápido, empobrecendo o debate político.


