Empresas brasileiras enfrentam onda de recuperação judicial
O Brasil vive um aumento significativo no número de pedidos de recuperação judicial e extrajudicial por parte de grandes empresas. Nomes como Habib’s, Casas Bahia, Marabraz, Braskem e Raízen estão na lista das companhias que buscam renegociar suas dívidas para evitar a falência. Segundo a consultoria RGF, especializada em reestruturação empresarial, o total de empresas em recuperação judicial cresceu 66% nos últimos três anos, alcançando 6.341 casos no segundo trimestre de 2026.
Desses pedidos, 21% são do setor varejista, 19,6% da indústria de transformação e 17,5% do agronegócio, que figuram entre os mais afetados por essa crise financeira. Na recuperação judicial, como no caso da Americanas desde 2023, todas as dívidas da empresa são renegociadas na Justiça, incluindo débitos trabalhistas, fornecedores e bancos. Já na recuperação extrajudicial, a negociação ocorre com um grupo selecionado de credores, homologada depois pelo Judiciário.
Juros altos e erros de gestão pressionam empresas
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconhece que o varejo sofre com a alta da taxa básica de juros, atualmente em 14% ao ano. Essa taxa eleva os custos de crédito para empresas e consumidores, afetando a capacidade de compra e venda. No entanto, o ministro nega uma crise generalizada, apontando que vários setores da economia brasileira ainda mostram força.
Especialistas consultados pela BBC News Brasil identificam três fatores principais que explicam a atual onda de recuperações judiciais, especialmente no varejo: a elevação prolongada da taxa Selic, que aumenta significativamente o endividamento das empresas; erros de gestão, que incluem cortes expressivos na média gerência; e transformações no mercado de trabalho, com menos profissionais interessados em carreiras tradicionais e dificuldades para reter talentos.
O impacto dos cortes na média gerência
Fabian Salum, professor da Fundação Dom Cabral, destaca que as decisões tomadas na última década de reduzir posições gerenciais para agilizar processos acabaram concentrando poder na alta liderança. Isso torna decisões erradas mais difíceis de corrigir e aumenta o risco para as companhias. A média gerência funciona como elo entre a diretoria e a base operacional, mas tem sido negligenciada, com cortes e falta de planos de carreira, o que prejudica a capacidade de reação das empresas.
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Fonte: jornalvilavelha.com.br
Durante a pandemia, muitas empresas apostaram pesado em tecnologia e comércio eletrônico. Embora necessária, essa estratégia não considerou o aumento da Selic que viria depois, o que resultou em dificuldades financeiras para muitas delas. Dados do Caged mostram que entre 2020 e 2025 o Brasil eliminou 322 mil vagas de gerência e diretoria, agravando o problema da falta de liderança qualificada.
Crescimento exagerado e decisões arriscadas
André Pimentel, da Performa Partners, alerta para o risco de expansões aceleradas sem correspondência na geração de caixa. A pressão por resultados leva empresas a buscar capital caro e a assumir riscos que comprometem a sustentabilidade. No caso da Casas Bahia, a recuperação judicial resultou no fechamento de 298 lojas e na demissão de 1.900 funcionários, com reintegração provisória determinada pela Justiça.
Existe um conflito de interesses entre executivos, que recebem bônus por metas de crescimento, e a necessidade real das empresas de reduzir tamanho para voltar à rentabilidade. Com o avanço do comércio eletrônico, o ajuste da rede física de lojas é fundamental para o equilíbrio financeiro.
Cortes mal calculados prejudicam a recuperação
A psicóloga Betania Tanure, especialista em comportamento organizacional, afirma que cortes drásticos de pessoal, comuns nas crises recentes, sobrecarregam os funcionários que permanecem e reduzem a qualidade do trabalho. Isabella Vasconcellos, professora da ESPM, reforça que a estrutura financeira das empresas continuará pressionada, já que a previsão é de juros em dois dígitos pelo menos até 2028.
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Fonte: edemossoro.com.br
Felipe Tanus, diretor de crédito da Allianz Trade Brasil, destaca que juros elevados aumentam o risco de insolvência, mas a má gestão também é uma preocupação. Casos como o da Americanas e Raízen evidenciam a necessidade de governança eficiente para evitar falhas graves.
Consumidor endividado e pressão sobre o mercado
Dados indicam que 39% da população está inadimplente, o que reduz o consumo e afeta a receita das empresas. A diminuição nas vendas leva à redução de investimentos, incluindo em qualificação profissional, num ciclo que dificulta a recuperação financeira.
O economista Castelar observa que muitos trabalhadores têm o salário comprometido por empréstimos, o que aumenta a vulnerabilidade do mercado. Esse cenário pode resultar em mais pedidos de recuperação judicial e pressiona o Banco Central a reduzir os juros para aliviar o setor empresarial.
Este quadro revela que a combinação de fatores econômicos, erros de gestão e mudanças no trabalho cria um ambiente desafiador para empresas brasileiras. A tendência é que o número de recuperações judiciais continue crescendo, exigindo atenção para estratégias que equilibrem crescimento, rentabilidade e gestão eficiente.

