O Desmoronar dos Templos Históricos
Na manhã que despontava em Salvador, Gaspar Gois, historiador renomado do Liceu Histórico e Geográfico da Bahia (LHGB), iniciou seu dia com a rotina costumeira: higiene, café e exercícios na academia do edifício onde mora, no bairro da Graça. Conhecido por seu hábito de saudar em francês, cumprimentou seu personal trainer, Igor Fernandes, apelidado de Vagalume, e o síndico Alcides Cohim, também presente na academia. A conversa logo se voltou para as notícias do dia.
Assim que a televisão foi ligada, as imagens mostraram o gol de Juba pelo Bahia no Campeonato Brasileiro, alegrando Vagalume, torcedor fervoroso do time. Porém, a celebração deu lugar à preocupação quando a jovem repórter Tamires passou a exibir uma reportagem sobre a interdição de 12 igrejas no centro histórico de Salvador. A Defesa Civil da cidade (Codesal), em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), interditou os templos após constatar riscos graves de desabamento.
Templos em Declínio: Uma Realidade Alarmante
A matéria revelou imagens das igrejas dos Perdões e de Nossa Senhora da Boa Viagem, algumas já parcialmente desabando. O tom do historiador Gaspar mudou drasticamente, refletindo tristeza e desolação. O repórter Fonseca Jr detalhou que as vistorias indicaram danos estruturais severos, como infiltrações, fissuras e deterioração das alvenarias, que colocam em risco a segurança dos fiéis e visitantes.
Ao vivo, direto da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, o monsenhor Taborda explicou que a falta de recursos técnicos e financeiros para manutenção, que caberia ao Estado, agrava a situação. Ele ressaltou o impacto turístico dos templos e a necessidade urgente de preservação, lembrando a tragédia na Igreja de São Francisco, quando parte do teto desabou, causando a morte de uma turista paulista.
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Reações e Mobilizações na Bahia
Após a notícia, Gaspar Gois, sentindo o peso da situação, contatou um parente na diretoria do LHGB para iniciar mobilizações. A ideia era criar uma comissão que pudesse levar a questão ao Planalto, envolvendo também artistas que atuam na capital federal e estão engajados em causas culturais. Contudo, o cenário político e a lentidão das ações governamentais geravam dúvidas sobre a eficácia dessas iniciativas.
O diretor do Liceu, Jotaci Gois, manifestou ceticismo diante das dificuldades, lembrando que o LHGB enfrenta perseguições políticas e cortes orçamentários, algo inédito desde a época do governador JJ Seabra, que ajudou a construir o histórico prédio da Avenida Sete.
Entre Frustrações e Realismo na Comissão de Defesa
Na primeira reunião da comissão criada para tratar do tema, o escritor e geógrafo Benedito Conceição expôs a improdutividade de protestos em Brasília, destacando a desconexão das autoridades federais com as demandas culturais e patrimoniais da Bahia e outras regiões do país. A bibliotecária Damares Xavier reforçou essa percepção, apontando a falta de recursos e o abandono estrutural até mesmo no LHGB.
O jurista Osvaldo Bandeira comentou sobre os cortes de verba e a morosidade judicial que emperram a liberação de fundos essenciais para a cultura. Diante desse quadro, o grupo decidiu elaborar a “Carta da Bahia”, um documento a ser divulgado pela internet, evitando despesas com deslocamento, mas que expressa a urgência e a frustração diante da inércia institucional.
O Desafio de Preservar a História
As 12 igrejas interditadas representam não apenas patrimônios arquitetônicos, mas também símbolos vivos da história e da fé que moldaram Salvador. A crise estrutural em que se encontram é reflexo da ausência de políticas públicas eficazes e da falta de investimentos na preservação cultural. Enquanto isso, o risco de novos desabamentos permanece, ameaçando a segurança do público e colocando em xeque a continuidade desses espaços tão significativos.
O futuro dessas igrejas depende da mobilização da sociedade civil, de uma resposta governamental mais efetiva e do reconhecimento do valor cultural que esses templos carregam. O debate permanece aberto, e a “Carta da Bahia” é um chamado para que a memória e a identidade baiana não sejam engolidas pelo descaso e pelo tempo.

