Preta Maria: uma imersão cultural e gastronômica
Bela Gil abriu o Preta Maria no complexo Mata São Paulo, trazendo uma experiência que vai além da cozinha. Enquanto degustava um tabule de painço acompanhado de purê morno de batata-doce laranja, ela falava sobre a conexão entre África, Bahia e memória, ingredientes essenciais do restaurante que leva o nome da irmã, Preta Gil.
O prato, totalmente inédito, utiliza um grão africano que Bela já conhece há muito tempo, adaptado em uma versão mais quente do tradicional árabe, promovendo uma sensação de acolhimento diferente da refrescância habitual. O purê morno substitui preparações comuns como babaganoush e homus, reforçando o conceito de conforto em cada garfada.
Três anos de projeto e um menu autoral
O projeto do Preta Maria levou mais de três anos para sair do papel. A intenção inicial era dar protagonismo à cultura africana por meio da culinária, música, tecidos e arquitetura, sem se limitar a reproduzir receitas tradicionais. A chef buscou inspiração na África Ocidental, especialmente em países como Nigéria e Senegal, cuja influência é marcante na culinária afro-brasileira e baiana.
Bela, que tem suas raízes na Bahia, incorporou ao menu pratos autorais como a coxinha de jaca e a pipoca de milho crioulo, além de experimentações veganas, como a mousse de chocolate feita com aquafaba. O cardápio propõe uma porta de entrada para a cultura africana, despertando o interesse do público por meio de uma imersão sensorial completa.
Uma trajetória marcada pela autenticidade e resistência
Apesar da exposição e dos memes que enfrentou desde que estreou como apresentadora do GNT, Bela Gil mantém o foco no propósito do Preta Maria. Para ela, o caminho é guiado pelo carinho e pelo cuidado em cada prato, que carrega um porquê específico. “Não dá para ter medo, senão você não faz nada”, afirma.
O processo criativo envolveu pesquisa constante, mais do que uma viagem específica. As referências vieram do convívio na Bahia, no terreiro de candomblé, nas experiências em Nova York e em diversos restaurantes africanos que frequentou. O resultado é um menu que reflete sua curiosidade e abertura para experimentações, com uma identidade própria.
Oxum e o feminino como alma do Preta Maria
Quando questionada sobre qual orixá representaria o restaurante, Bela aponta Oxum, figura ligada à doçura, beleza e cuidado com os detalhes. Essa escolha também reflete a presença feminina no projeto, que, embora não tenha sido uma preocupação explícita, está presente no acolhimento e na sensibilidade com que tudo foi pensado.
Nutrição e prazer em harmonia
Bela não separa nutrição do prazer à mesa. Para ela, a cultura africana inspira uma visão circular, onde não há hierarquia entre saúde e sabor. O Preta Maria oferece desde petiscos como pipoca de milho crioulo até pratos mais elaborados e sobremesas, permitindo que o público escolha conforme seu momento. A comida orgânica e agroecológica é valorizada, mas o restaurante não se limita a um conceito restrito de alimentação saudável.
Receitas pessoais e memórias em cada prato
Pratos como a coxinha de jaca, que marcou a trajetória de Bela, ganham lugar de destaque no cardápio. A pipoca, que já virou meme em sua carreira, é oferecida como um gesto de acolhimento, representando resistência e transformação – do grão duro ao alimento leve. Cada elemento do menu carrega uma história e um significado pensado com atenção.
Inclusão e respeito na diversidade alimentar
Embora vegetariana, Bela reconhece a importância da inclusão e não exclui a proteína animal do Preta Maria. A maturidade a levou a abrir espaço para uma alimentação mais diversa e consciente, respeitando diferentes escolhas e valorizando ingredientes orgânicos. O restaurante se apresenta como um ponto de encontro para variados públicos, sem abrir mão do compromisso com a qualidade.
Uma homenagem cultural e gastronômica
O Preta Maria é, antes de tudo, uma celebração da cultura africana e sua influência na Bahia. Além da comida, o espaço oferece música, arquitetura e tecidos que reforçam essa conexão. O objetivo é que o público saia com a sensação de ter experimentado sabores e vivências autênticas, com uma cozinha que une alma e simplicidade.
Coquetéis com histórias e sensações
A carta de drinques também merece destaque. Bela revela seu apreço pelo “Rainha do Mar”, homenagem a Iemanjá, com sua cor azul e espuma que evocam o mar. Outro destaque é o “Jurubeba”, sabor afetivo ligado às suas memórias com o pai. Para a chef, o coquetel é uma experiência que convida à conversa e à surpresa, estendendo a noite com sabores inesperados e momentos de prazer compartilhado.

