A Diversificação no Agronegócio Brasileiro
Aos 63 anos, o agricultor Amauri Weber cultiva grãos em 700 hectares nas cidades de Palotina e Terra Roxa, localizadas no Oeste do Paraná. Com o uso de rotação de culturas e modernas técnicas de manejo, ele obteve na última safra impressionantes 83,5 sacas por hectare de soja, um resultado considerado excepcional. Os grãos foram entregues à cooperativa C. Vale, da qual é associado. Embora a cooperativa utilize a maior parte dos grãos para suas fábricas de ração, em 2022, o trabalho conjunto resultou em 199,3 mil toneladas de óleo degomado, essencial para a produção de biodiesel.
– “Produzir energia renovável, além de alimentos, é gratificante”, resume Weber.
Investimentos em Agroenergia
Uma parte significativa desse óleo é comercializada com o Grupo Potencial, que conta com uma fábrica na Lapa, na Região Metropolitana de Curitiba, onde produz cerca de 1 bilhão de litros de biodiesel anualmente. Recentemente, a empresa anunciou um investimento de R$ 6 bilhões até 2030, com o objetivo de transformar a unidade em um complexo de agroenergia, que incluirá também a produção de etanol e biogás. Em perspectiva, a soja poderá gerar anualmente 1,7 bilhão de litros de biodiesel e 500 milhões de litros de óleo degomado.
– “A soja permanecerá como protagonista na produção de biodiesel”, afirma César de Castro, pesquisador da Embrapa Soja.
A Predominância da Soja no Biodiesel
Em 2025, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a soja respondeu por 73,3% dos 9,8 bilhões de litros de biodiesel produzidos no Brasil. Castro explica que a mecanização da cultura, sua ampla aplicação na alimentação animal e a robustez de mais de 50 anos de pesquisa conferem à soja uma vantagem considerável.
– “O farelo é um subproduto, enquanto o óleo é como um bônus”, acrescenta o especialista.
Expansão da Capacidade Produtiva de Biodiesel
As projeções indicam que esse volume tende a crescer ainda mais nos próximos anos. Fernando Moura, diretor da ANP, ressalta que já há uma capacidade produtiva autorizada de 15,5 milhões de metros cúbicos por ano, um aumento de 36% em relação ao nível atual.
Apesar do domínio da soja, o chefe-adjunto de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Agroenergia, Bruno Laviola, destaca que culturas como a canola e a macaúba têm potencial para contribuir na produção de biodiesel, especialmente em áreas que não podem ser mecanizadas. O conteúdo de óleo da canola varia de 38% a 42%, enquanto o da macaúba chega a impressionantes 60%, segundo estudos da Embrapa.
– “A soja ocupa 48,4 milhões de hectares, o que é significativo, mas diversificar é fundamental”, avalia Laviola.
O Papel da Pecuária e Outras Culturas
Enquanto outras culturas são desenvolvidas, a pecuária continua sendo a segunda maior fonte de biodiesel, com 8,3% de participação. Em 2025, as gorduras bovina e suína juntas geraram 827,5 milhões de litros do combustível, sendo uma alternativa viável e com menor impacto ambiental.
A produção de etanol, que está presente no Brasil há mais de 50 anos, também tem mostrado crescimento. Nos últimos dez anos, a produção do biocombustível aumentou 20%, alcançando quase 36 milhões de metros cúbicos em 2025, conforme a ANP. Com 45 projetos de ampliação ou novos empreendimentos para indústrias de etanol com previsão de operação até 2026, a capacidade produtiva anual do etanol anidro deve aumentar em 12% e a do hidratado em 7,8%.
O Crescimento do Etanol de Milho
Embora a cana-de-açúcar ainda seja a principal fonte, os investimentos em produção de etanol a partir do milho têm crescido consideravelmente. O milho, que contribuiu com quase 30% da produção total de etanol em 2025, está se consolidando com 27 biorrefinarias dedicadas e mais 16 em processo de construção, conforme dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem).
Para Guilherme Nogueira, CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), cana e milho se complementam, especialmente na região Centro-Oeste, onde a produção de milho é mais expressiva.
– “É imprescindível que exista igualdade regulatória e concorrencial entre as diferentes rotas produtivas”, ressalta Nogueira.
A Industrialização do Milho e seu Impacto
Lucas Costa Beber, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja-MT), destaca a importância da industrialização do milho para a produção de etanol, considerando isso um processo irreversível:
– “O milho gera uma proteína de alta qualidade e o combustível agrega valor ao grão. Atualmente, para cada tonelada colhida, arrecadamos R$ 300 em impostos”.
Alguns agricultores estão negociando diretamente com indústrias que buscam os estoques de milho. Beber vende sua produção para a Inpasa, uma empresa paraguaia que atua no Brasil desde 2018 e já possui sete indústrias. Em Sinop, no norte do Mato Grosso, uma das unidades produz 1 bilhão de litros de etanol anualmente. Além disso, a Inpasa também começou a incluir o sorgo granífero, que já representa 5% de sua produção de etanol, especialmente nas indústrias da Bahia e do Mato Grosso do Sul. A pesquisa da Embrapa indica que o sorgo é resistente a variações climáticas e se adapta bem a solos arenosos, potencializando sua utilização na geração de biocombustíveis. Uma tonelada de sorgo pode resultar em até 410 litros de etanol, número próximo aos 440 litros produzidos a partir do milho.


