Resgate e condições precárias no garimpo de quartzo rutilado
O relato de Josué*, um trabalhador do garimpo de quartzo rutilado na zona rural de Novo Horizonte, na Chapada Diamantina, Bahia, revela a dura realidade enfrentada por garimpeiros na região. Ele lembra que o pagamento recebido não cobria nem itens básicos de higiene, pois os donos dos garimpos priorizavam apenas a produção. Em maio, Josué e mais 23 pessoas foram resgatadas por auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que identificaram condições análogas à escravidão em quatro garimpos da área.
O valor do quartzo rutilado e a exploração dos trabalhadores
Com suas agulhas douradas e avermelhadas dentro do cristal, o quartzo rutilado é muito valorizado pela indústria de joias, especialmente no mercado chinês. A Chapada Diamantina destaca-se como uma das maiores regiões brasileiras na extração de gemas, com um histórico que mistura garimpo e mineração semiartesanal, explica a geóloga e geotécnica Alice Teixeira.
Depoimentos coletados pela Repórter Brasil e auditores do MTE indicam que os proprietários dos garimpos retinham até 30% do valor bruto da produção, enquanto os trabalhadores recebiam entre 22% e 26%, divididos entre grupos de até seis pessoas. A relação informal entre exploradores e garimpeiros era construída ao longo de anos, com os trabalhadores se vendo como sócios, segundo a auditora fiscal Gislene Stacholski, coordenadora da operação.
Condições de trabalho e falta de direitos
Os garimpeiros recebiam cerca de R$ 120 por semana para alimentação, valor descontado para itens básicos como água. André*, outro trabalhador resgatado, relata que muitas vezes ficava mais de um mês sem receber qualquer pagamento. Além disso, não havia treinamento adequado, embora os trabalhadores pudessem pegar equipamentos de segurança emprestados da Cooperativa dos Garimpeiros de Novo Horizonte (Coopeganh), presidida por José Flávio Mota Junior, atual secretário municipal de Mineração de Ibitiara.
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Fonte: acreverdade.com.br
Em nota, Mota Junior afirmou que as áreas fiscalizadas não pertencem à Coopeganh nem têm vínculo com ela. A doação dos equipamentos, afirma, é feita gratuitamente a todos os garimpeiros da região para cumprir exigências ambientais. Ele reconhece a necessidade de avanços na segurança do setor, trabalho que a cooperativa busca desenvolver.
Riscos e acidentes frequentes nas minas subterrâneas
Os trabalhadores não sabiam se os seguranças do local andavam armados, mas relatavam sensação constante de vigilância e controle rígido. A lavra subterrânea alcançava até 100 metros de profundidade, sem escoramento ou supervisão técnica, aumentando o risco de acidentes. Josué recorda um colega que caiu de uma mangueira de oito metros. Em 2025, o local já havia sido interditado por riscos graves, como soterramento e fraturas, após fiscalização identificar trabalhadores sem registro em carteira.
Denúncias e ações judiciais contra responsáveis
Celsinho, acusado de submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão, responde por associação criminosa, exploração ilegal de minério e tráfico internacional de armas. Em 2012, uma operação da Polícia Federal investigou uma rede criminosa que atuava na extração e exportação ilegal de quartzo rutilado, envolvendo grupos na região, inclusive liderados por Celsinho e José Flávio Mota Junior. A Justiça condenou Celsinho a indenizar a União em quase R$ 1 milhão por danos ambientais e extração ilegal, sentença que ele recorre.
Compradores chineses teriam negociado diretamente com esses grupos, conforme depoimentos e investigações. Onze pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público Federal por associação criminosa e compra ilegal de minérios. A acusação ainda aponta trabalho infantil e condições degradantes, sem salário ou equipamentos, em lonas improvisadas e ambiente sem higiene.
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Fonte: edemossoro.com.br
Família de ex-prefeito também na mira da fiscalização
Próximo ao garimpo de Celsinho está a Fazenda Primavera, propriedade de Djalma dos Anjos, ex-prefeito de Novo Horizonte, e seu filho, que foi autuado por não registrar trabalhadores. O atual prefeito Rogério de Oliveira Prado (PSD) é vice de Djalma. A autorização para lavra na fazenda expirou em 2022 e não foi renovada pela Agência Nacional de Mineração (ANM) por falta de documentos. A família dos Anjos tem histórico de envolvimento em operações policiais relacionadas ao garimpo ilegal.
Reparação e direitos trabalhistas pendentes
Os trabalhadores resgatados ainda não receberam os direitos trabalhistas devidos, dependendo do seguro-desemprego. O defensor público federal Deraldino Alves de Araújo Filho informou que vai mover ação para garantir pagamento de verbas rescisórias, FGTS e indenização por danos morais. Ele destaca que a exploração não ocorreu em regime de garimpagem individual ou economia familiar, mas sim em uma relação de exploração organizada.
*Os nomes dos entrevistados foram alterados para preservar suas identidades.

