A Força das Famílias na Política Nordestina
A menos de seis meses das eleições, o cenário eleitoral nos estados do Nordeste do Brasil é permeado por um elemento que persiste na política brasileira: a influência das famílias. As candidaturas em diferentes estados continuam fortemente ligadas a redes familiares, que se estendem por gerações, conectando mandatos e ampliando o controle desses clãs sobre as estruturas partidárias e eleitorais.
Em Alagoas, por exemplo, o sobrenome Calheiros se destaca como um dos mais influentes. O ex-ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), busca retornar ao comando do Executivo alagoano e carrega o legado político do senador Renan Calheiros, uma figura proeminente na política nacional. Da mesma forma, o ex-prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, conhecido como JHC, também é um herdeiro do capital político do pai, o ex-deputado João Caldas.
Legados que Persistem na Bahia e Pernambuco
Na Bahia, a influência familiar se torna emblemática na trajetória de ACM Neto (União Brasil), que é herdeiro do ex-governador Antônio Carlos Magalhães. Seu grupo político moldou a dinâmica de poder no estado por décadas. Mesmo com a ascensão do PT nos últimos anos, a memória política de ACM é um ativo valioso que tende a ser reforçado pela campanha do cacique do União.
Em Pernambuco, o ex-prefeito do Recife, João Campos (PSB), simboliza a continuidade de uma das mais tradicionais dinastias políticas nordestinas: ele é filho do ex-governador Eduardo Campos e bisneto de Miguel Arraes. No lado oposto, a governadora Raquel Lyra (PSD) também é proveniente de uma linhagem política consolidada. Filha do ex-governador João Lyra Neto, ela construiu sua trajetória em Caruaru, onde a família Lyra tem forte influência política há anos.
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Instabilidade no Ceará e a Reestruturação das Famílias
No Ceará, a dinâmica das famílias políticas apresenta contornos mais instáveis. O clã Ferreira Gomes, que inclui Ciro Gomes, candidato ao governo pelo PSDB, e seu irmão Cid Gomes (PSB), estabeleceu uma das redes mais robustas da política regional, especialmente pela influência da família em Sobral, uma cidade que governaram por mais de 30 anos.
Contudo, o rompimento entre os irmãos nas eleições de 2022 fragmentou o grupo, refletindo diretamente no cenário político. Apesar disso, Ciro se mostra como favorito nas pesquisas contra o governador Elmano de Freitas (PT) em sua busca pelo Palácio da Abolição, um movimento que é interpretado como uma possível recuperação do capital político do clã no estado.
Reprodução Familiar em Maranhão e Paraíba
No Maranhão e Paraíba, a lógica da reprodução familiar se mantém. O governador Carlos Brandão (PSB) indicou seu sobrinho, Orleans Brandão (MDB), como sucessor no governo maranhense. Ele enfrentará como principal adversário Eduardo Braide (PSD), prefeito de São Luís, que também tem apoio familiar no Legislativo estadual.
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Já na Paraíba, o senador Efraim Filho (União) herdou a base eleitoral do pai, o ex-senador Efraim Morais, enquanto o vice-governador Lucas Ribeiro (PP) faz parte de um grupo político liderado pelo deputado federal Aguinaldo Ribeiro.
Desafios e Novas Perspectivas em Sergipe
Em Sergipe, a dinâmica familiar é menos complexa, mas ainda significativa. O governador Fábio Mitidieri (PSD), que busca a reeleição, é filho do ex-deputado federal Luiz Mitidieri e conta com o apoio de clãs como os Valadares e Franco, que são importantes no estado. Seu principal adversário, Valmir de Francisquinho (PL), ex-prefeito de Itabaiana, está tentando fortalecer sua base em municípios do interior, apoiado por Ricardo Marques e o deputado Rodrigo Valadares.
O Cenário Sem Famílias Tradicionais
Por outro lado, em estados como Bahia, Ceará e Piauí, os governadores Jerônimo Rodrigues, Elmano de Freitas e Rafael Fonteles, todos do PT e buscando reeleição, não pertencem a tradicionais linhagens políticas. O mesmo se aplica ao Rio Grande do Norte, onde a governadora Fátima Bezerra apoia seu ex-secretário estadual da Fazenda, Cadu Xavier.
Uma Característica Histórica da Política Brasileira
Embora a influência familiar nas disputas eleitorais do Nordeste seja marcante, esse fenômeno não é exclusivo da região. Especialistas consultados pela CartaCapital indicam que se trata de um reflexo histórico da formação política do Brasil, que se adapta conforme as estruturas de poder se reorganizam.
O cientista político Cláudio André, professor adjunto da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, explica que “várias linhagens da política brasileira se reproduzem nessa lógica familiar, que envolve acesso direto ao poder e interesses políticos e econômicos, funcionando como um meio de manutenção e concentração de poder ao longo do tempo”. Essa dinâmica ajuda a esclarecer por que a renovação política muitas vezes ocorre dentro dessas mesmas dinastias.
A professora Luciana Santana, da Universidade Federal de Alagoas, complementa que a permanência da influência dessas famílias é resultado de uma combinação de herança histórica e a capacidade de se adaptar às novas regras do jogo político. “Essas famílias estão se modernizando, incorporando o uso de partidos fortes e campanhas mais profissionais, além de uma presença digital intensificada. Portanto, não se trata apenas de uma questão histórica, mas de uma adaptação contínua”, afirma.
Contudo, Santana pondera que o peso do sobrenome não opera de forma automática. “Embora o sobrenome funcione como um atalho cognitivo para o eleitor, facilitando o reconhecimento imediato e a associação com um legado político, ele não é uma garantia de vitória”. O desempenho individual, o contexto eleitoral e a avaliação do eleitorado continuam a ser fundamentais. “O sobrenome pode abrir portas, mas não assegura a vitória nas eleições”.


