Um olhar atento à cultura popular do Rio de Janeiro
Luiz Antonio Simas é uma figura fundamental para quem deseja compreender a riqueza da cultura popular brasileira, embora seu trabalho ainda não tenha grande visibilidade na cena literária baiana. Carioca, professor e historiador, Simas é autor do “Dicionário da História do samba” e dedica seus textos a temas que permeiam o cotidiano cultural do Rio, como as ruas, o samba, a umbanda e o Carnaval. Esses elementos, que também marcam a cultura de Salvador, reforçam os vínculos históricos e culturais entre as duas cidades, mesmo diante das diferenças sociais e culturais.
Com uma escrita que transita entre o crítico e o poético, o olhar de Simas captura as nuances e os ritmos que definem a vida carioca. Seu trabalho remete a um João do Rio contemporâneo, utilizando o samba como elo para narrar a complexidade da vida social brasileira.
Crônicas que desvendam as tradições e a vida cotidiana do Rio
Os livros “O Corpo Encantado das Ruas” e “Crônicas Exusíacas & Estilhaços Pelintras”, lançados em 2025 pela Editora Civilização Brasileira, selo José Olympio, reúnem crônicas escritas respectivamente em 2019 e 2023. Ambos dialogam com temas como ruas, samba, umbanda e a presença da figura de Exu, divindade que conecta o Rio e Salvador.
Nas narrativas de Simas, os personagens ganham vida sem cair em estereótipos ou idealizações. Um exemplo é a crônica “A Casa da Tia Ciata”, que conta a história de Hilária Batista de Almeida, sacerdotisa do candomblé que transformou sua casa em um ponto de encontro para músicos e compositores, berço do samba carioca.
Leia também: Lançamento do livro “Conectar Cultural – Recôncavo da Bahia” celebra a riqueza da cultura popular
Leia também: Agenda Cultural de Junho 2026 no Teatro Carlos Pitta: Samba, Teatro e Ritmos Juninos em Feira de Santana
Fonte: amapainforma.com.br
História e cultura popular entrelaçadas nas crônicas
Simas combina seu conhecimento acadêmico com a vivência nas ruas, terreiros, bares e quadras de escolas de samba. Suas crônicas revelam a dimensão cultural e política do Rio, criticando a mercantilização promovida por eventos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, que reduziram o protagonismo das escolas de samba, instituições centrais para a cultura negra após a abolição.
Essa realidade não é exclusiva do Rio. Em Salvador, manifestações como afoxé, maracatu e samba reggae enfrentam desafios diante do crescimento dos blocos de grande porte, refletindo tensões entre tradição e modernidade.
A presença de Exu e a sociabilidade nas crônicas de Simas
Em “Crônicas Exusíacas & Estilhaços Pelintras”, Simas apresenta personagens e histórias que dialogam com a umbanda e o samba. Entre eles, destaca-se Tião Casemiro, conhecido como “a voz de ouro da umbanda”, cuja trajetória entre terreiros e samba evidencia a íntima conexão entre religião e cultura popular no Rio de Janeiro.
O autor também incorpora referências filosóficas, como a interpretação do “Angelus Novus” de Paul Klee feita por Walter Benjamin, aproximando esta imagem da figura de Exu. Essa articulação entre o erudito e o popular enriquece a compreensão das crônicas.
Leia também: Sapucaí encerra desfiles do Grupo Especial nesta terça (17)
Fonte: gpsbrasilia.com.br
Leia também: 120 Anos dos Blocos de Rua: A Influência Política e a Evolução do Carnaval Carioca
Fonte: soudejuazeiro.com.br
O cotidiano e a história social nas narrativas de Simas
Em “O Corpo Encantado das Ruas”, Simas investiga aspectos do cotidiano carioca, como o jogo do bicho, o futebol, os bares, as crianças e as tradições populares. Ele também contextualiza momentos históricos, como a fundação do arraial no sopé do Pão de Açúcar em 1565 por Estácio de Sá, que enfrentava a Confederação dos Tamoios e interesses franceses.
Essas histórias revelam o Rio como um espaço dinâmico, permeado por memórias e ritmos que moldam a vida de seus habitantes, desvendando as múltiplas camadas da cultura popular carioca.
Obras essenciais para entender a cultura popular brasileira
As crônicas de Luiz Antonio Simas oferecem um olhar sensível e crítico sobre a cultura popular, unindo erudição e experiência de campo. Seus livros abrem uma janela para o Rio e, por extensão, para a diversidade cultural do Brasil, convidando o leitor a mergulhar em histórias que atravessam tempo e espaço, entre ruas, terreiros e festas.
Para quem busca compreender as intersecções entre história, cultura e sociedade, essas obras representam um convite para explorar a riqueza das manifestações populares e sua importância no tecido social brasileiro.

